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Mais de metade dos automóveis vendidos no mercado chinês são elétricos ou híbridos
Gigantes alemães procuram resistir à ofensiva global chinesa no mercado automóvel. Mas a consultora Sino Auto Insights refere que "as marcas tradicionais estão a trazer brinquedos analógicos para um parque digital".
05 Ago 2026 - 09:13
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As fabricantes automóveis alemãs enfrentam a mais profunda crise das últimas décadas, pressionadas pela quebra das vendas na China e pela ascensão de marcas chinesas que estão a preparar uma ofensiva sobre a Europa.
A Volkswagen viu o lucro líquido cair 30,7% no primeiro semestre deste ano, para 3.103 milhões de euros, com as vendas na China a recuar 31,6% e anulando o crescimento registado na América do Sul e noutros mercados.
Por seu lado, a Mercedes-Benz registou uma quebra de 6% nos lucros, para 2.519 milhões de euros, também penalizada por uma descida de 30% das vendas na China, enquanto a BMW viu o resultado líquido cair 28,5%, para 2.872 milhões de euros, depois de as vendas no mercado chinês terem recuado mais de 30% no segundo trimestre.
Por detrás desta crise está uma transformação iniciada há mais de uma década no país asiático.
Durante anos, a China preparou a transição para veículos elétricos através de uma política industrial que lhe garantiu uma posição dominante em toda a cadeia de valor, desde o acesso a matérias-primas críticas até ao fabrico de baterias.
Em 2025, mais de metade dos automóveis vendidos no mercado chinês eram veículos de novas energias – elétricos ou híbridos. No mesmo ano, a China exportou um recorde de 7,09 milhões de veículos, consolidando-se como o maior exportador automóvel do mundo.
Parque cada vez mais digital
“As marcas tradicionais estão a trazer brinquedos analógicos para um parque digital”, resumiu à Lusa Tu Le, fundador da consultora Sino Auto Insights. “Já não é apenas um automóvel. É uma plataforma tecnológica”, afirmou.
Os novos modelos chineses oferecem estacionamento autónomo, assistentes de voz alimentados por inteligência artificial, sistemas avançados de condução assistida e baterias que, nos modelos mais recentes, anunciam autonomias superiores a 700 quilómetros e carregamentos de cerca de 15 minutos.
“O período em que a China copiava acabou. A inovação está a acontecer aqui”, reconheceu à Lusa Jochen Sengpiehl, anterior diretor de marketing da Volkswagen na China.
Para o gestor alemão, a velocidade de inovação está a obrigar os fabricantes tradicionais a mudar de estratégia. “Já não podemos fazer tudo sozinhos”, admitiu, referindo-se à parceria estabelecida pela Volkswagen com a fabricante chinesa Xpeng.
Carlos Martins, diretor da fábrica da portuguesa Sodecia no nordeste da China, considera que a principal vantagem competitiva dos fabricantes chineses reside na rapidez de execução.
“As empresas europeias têm estruturas muito pesadas. Aqui conseguem desenvolver e colocar novos produtos no mercado muito mais depressa”, explicou à Lusa.
O efeito predador
A pressão sobre os fabricantes estrangeiros aumentou depois da entrada da Tesla no mercado chinês, em 2019. Tu Le lembrou que o “catalisador” que obrigou as marcas chinesas a dar um salto qualitativo foi a abertura da fábrica da Tesla em Xangai, em 2019. A produção local deu à construtora norte-americana acesso aos mesmos subsídios e incentivos fiscais usufruídos pelos concorrentes chineses.
“Foi o efeito siluro”, observou à Lusa o consultor, numa referência ao peixe que é um dos maiores predadores nos rios europeus e asiáticos, constituindo uma ameaça à sobrevivência de várias espécies locais. “Havia muitos peixes gordos e preguiçosos no lago, mas a entrada de um siluro obrigou a que se fortalecessem”.
Marcas como a BYD, Xiaomi, Xpeng, Li Auto ou Aito estão agora a preparar uma ofensiva internacional, incluindo sobre o segmento de gama alta europeu.
A Xiaomi pretende entrar na Alemanha em 2027 e tornar-se uma das cinco principais marcas ‘premium’ da Europa até ao final da década. A empresa recrutou engenheiros da BMW, Porsche e Tesla e aposta na condução autónoma como principal fator diferenciador.
A Li Auto prepara igualmente a entrada na Europa com o modelo i6, enquanto a Xpeng quer exportar não apenas automóveis elétricos, mas também robôs humanoides e carros voadores.
No primeiro semestre deste ano, as marcas chinesas conquistaram já 9% das vendas de automóveis novos na Europa continental e 15% no Reino Unido.
A consultora AlixPartners estima que essa quota possa atingir 16% na União Europeia até 2030. “Se fosse a Mercedes-Benz, a BMW ou a Porsche, estaria preocupado”, afirmou Tu Le. Nem todos partilham dessa visão.
Num discurso na abertura do salão automóvel de Pequim em abril, Burkhard Weller, presidente da Associação Alemã de Concessionários Automóveis, considerou que a fidelidade dos consumidores europeus às marcas ‘premium’ continuará a constituir uma barreira importante. Mas mesmo os fabricantes europeus reconhecem que a competição mudou de natureza.
“Em nenhuma outra região do mundo a transformação da indústria automóvel é tão rápida como na China”, afirmou Oliver Blume, presidente executivo da Volkswagen. “O mercado chinês tornou-se um centro de alta ‘performance’ para nós. Temos de trabalhar mais e mais depressa para conseguir acompanhá-lo”, vincou.
Agência Lusa
Editado por Jornal PT Green
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