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Ray Archuleta: “A saúde do solo é uma questão de segurança nacional”

Para o biólogo agrícola norte-americano, a prioridade de Portugal na gestão dos solos deverá ser a restauração do ciclo da água. E recomenda que os agricultores, num país com terrenos muito fragmentados, comecem a regenerar em pequenas parcelas de teste.

04 Mai 2026 - 07:35

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Ray Archuleta

Ray Archuleta

Ray Archuleta é considerado uma das principais referências internacionais na área da saúde do solo e agricultura regenerativa, destacando-se por demonstrar, de forma prática, o papel crítico do solo na mitigação das alterações climáticas, na retenção de água e na regeneração dos ecossistemas.

Esteve recentemente em Portugal no âmbito do Fórum Regenerar 2026, promovido pela Fundação Mendes Gonçalves. Em entrevista ao Jornal PT Green, destacou o papel do solo como ativo crítico para a segurança nacional, sobretudo em matéria de resiliência alimentar.

O biólogo agrícola com origem no Novo México, EUA, defende a agricultura regenerativa como ferramenta para a  renovação ecológica. Sobre o caso particular de Portugal, Ray Archuleta aponta a restauração do ciclo da água como prioridade do país. Para isso, “é essencial manter o solo coberto, aumentar a diversidade de plantas e preservar raízes vivas de forma contínua”, aconselha.

O solo tem um papel central na mitigação das alterações climáticas. De forma prática, como pode a saúde do solo contribuir para a captura de carbono em larga escala?

A captura de carbono não é uma prática em si mesma, mas o resultado de um solo funcional. As plantas capturam carbono, mas é a biologia do solo que o estabiliza através da agregação. Esta agregação protege o carbono e regula a infiltração da água, ligando o ciclo do carbono ao ciclo da água.

Indicadores como a respiração do solo, a agregação e o carbono orgânico não devem ser analisados de forma isolada, porque todos confirmam que os processos biológicos estão a funcionar. Quando a biologia do solo está ativa, o sistema consegue acumular carbono sem depender de energia externa, ao contrário dos fertilizantes sintéticos azotados, que estão entre os fatores de produção mais intensivos em energia na agricultura.

A captura de carbono é, no fundo, uma forma temporária de armazenamento de energia.

Apesar da sua importância, a regeneração dos solos ainda tem pouca visibilidade no debate público. Porque acredita que este tema continua subvalorizado?

Porque a maioria das pessoas foi ensinada a olhar para as partes, e não para os sistemas. O solo liga água, energia, nutrientes e biologia num único sistema orientado por processos. Quando os indicadores são separados da função, o solo torna-se invisível. É essa desconexão que faz com que continue a ser subvalorizado.

Que obstáculos, sejam eles culturais, económicos ou políticos, dificultam a transição para modelos agrícolas mais regenerativos?

Há três realidades que atrasam a adoção de modelos regenerativos. A primeira é a pressão social: muitas vezes, os agricultores são mais influenciados pelos vizinhos do que pelos dados. A segunda é o facto de a agricultura regenerativa exigir pensamento crítico e gestão ativa, e não apenas a aplicação de soluções fechadas. A terceira é a necessidade de uma abordagem mais científica, assente em parcelas de teste, medição de indicadores e adaptação contínua das práticas.

Esta transição implica sair de um modelo de dependência de fatores de produção externos.

Older man with white hair and beard holding soil in cupped hands while speaking outdoors in a garden setting.A retenção de água no solo é um dos benefícios frequentemente associados à agricultura regenerativa. Pode explicar como isso afeta a resiliência dos sistemas agrícolas face a eventos climáticos extremos?

A retenção de água é um sinal da agregação do solo. Os agregados permitem a infiltração da água, e a infiltração é essencial para completar o ciclo da água. Sem esse processo, a água escorre à superfície, contribuindo tanto para situações de seca como para inundações.

A taxa de infiltração é um indicador direto do funcionamento do sistema. Solos funcionais armazenam e fazem circular a água de forma mais eficiente.

Por cada aumento de 1% na matéria orgânica do solo, este pode armazenar aproximadamente entre 205.000 e 234.000 litros de água por hectare. Isto pode reduzir os custos de bombagem e de eletricidade.

Ao longo da sua experiência no terreno, quais foram as mudanças mais surpreendentes que observou quando agricultores adotam práticas regenerativas?

A mudança mais surpreendente é a rapidez da resposta. Quando a perturbação do solo é reduzida e as raízes vivas permanecem no solo, a biologia ativa-se rapidamente. A agregação melhora, a infiltração aumenta e o ciclo de nutrientes começa a funcionar, substituindo progressivamente a necessidade de fatores de produção externos.

O sistema está desenhado para se regenerar quando removemos os seus constrangimentos. Um dos aspetos mais bonitos é ver os agricultores recuperarem a esperança e voltarem a apaixonar-se pela agricultura.

Existem práticas regenerativas implementadas noutros países que considera particularmente relevantes para a realidade europeia? Quais seriam mais facilmente adaptáveis a Portugal?

Os princípios são universais: minimizar a perturbação, maximizar a diversidade, manter o solo coberto e preservar raízes vivas no solo.

Práticas como culturas de cobertura e pastoreio adaptativo podem ser bem aplicadas ao contexto europeu e português, mas a gestão tem de estar ajustada a cada ambiente. Copiar práticas sem compreender a função que está por trás delas conduz ao fracasso.

Portugal enfrenta períodos crescentes de seca e degradação dos solos. Que práticas de agricultura regenerativa considera mais urgentes e eficazes para responder a esta realidade específica?

A prioridade deve ser restaurar o ciclo da água. Para isso, é essencial manter o solo coberto, aumentar a diversidade de plantas e preservar raízes vivas de forma contínua. Estes fatores reconstroem a agregação do solo, que determina se a água entra ou não no sistema.

Se a água não infiltra no solo, nenhuma outra prática terá verdadeiro impacto.

Como diziam os antigos, a planta é a boca do solo. Por isso, é preciso cobrir o solo. Sem plantas, não há energia, ou seja, alimento para os microrganismos.

Tendo em conta a estrutura agrícola portuguesa, com muitas explorações de pequena e média dimensão, como podem os agricultores locais implementar princípios regenerativos de forma viável, tanto do ponto de vista técnico como económico?

A melhor forma é começar em pequena escala e comprovar os resultados. Os agricultores podem criar parcelas de teste, medir indicadores e reduzir gradualmente os custos com fatores de produção.

A maior oportunidade está na redução do uso de fertilizantes azotados, cuja produção exige uma quantidade significativa de energia. Quando a biologia do solo passa a fazer circular os nutrientes, os custos energéticos externos diminuem e a rentabilidade melhora.

Para decisores políticos e agricultores que ainda estão céticos, qual seria a principal mensagem que gostaria de deixar sobre a urgência de regenerar os solos?

O solo está vivo. Tal como nós. A função do solo determina tudo. A agregação controla a infiltração, a infiltração impulsiona o ciclo da água e a biologia conduz o ciclo dos nutrientes. Os indicadores são apenas sinais desses processos.

A regeneração não é uma ideologia. É restaurar a forma como os ecossistemas funcionam. Se a água não está a entrar no solo, o sistema já está a falhar.

A saúde do solo é uma questão de segurança nacional. Sem fertilizantes e petroquímicos, um país pode enfrentar situações de fome em grande escala. Solos saudáveis não precisam de fertilizantes, pesticidas ou fungicidas. Isto é resiliência, saúde e vida.

 

 

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