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Risco climático deixa de ser tema ambiental e torna-se prioridade dos CEO, diz KPMG Portugal
Rui Gonçalves afirma que a inteligência artificial pode antecipar e mitigar impactos climáticos, mas alerta que a confiança, a supervisão e a eficiência energética serão decisivas para o seu sucesso.
29 Jun 2026 - 08:47
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O responsável pela consultoria tecnológica da KPMG Portugal diz, em entrevista à Lusa, que o risco climático saiu da agenda da sustentabilidade e entrou na agenda do CEO, passando a prioridade de gestão de topo.
“O risco climático saiu da agenda da sustentabilidade e entrou na agenda do CEO [presidente executivo]. E essa mudança, de tema lateral a prioridade de gestão de topo, é, por si só, a notícia”, salienta Rui Gonçalves, sócio e responsável pela consultoria tecnológica da KPMG Portugal.
“O problema é que consciência não é o mesmo que ação e Portugal tem um historial de se mobilizar bem depois do desastre e mal antes dele”, mas, “desta vez, temos as ferramentas para inverter a ordem, só falta usá-las”, prossegue, aludindo ao uso da inteligência artificial (IA).
A KPMG, juntamente com os parceiros, apresentou recentemente várias soluções com operações à escala global, “incluindo um caso que opera uma constelação própria de satélites que alimenta modelos de IA, disponibilizando inteligência meteorológica acionável a operadores de energia, transportes e infraestruturas”, exemplifica.
Este trabalho é feito em três frentes muito concretas: Em primeiro lugar, “o diagnóstico, onde ajudamos entidades públicas e privadas a perceber a sua exposição real – que infraestruturas são críticas, quão vulneráveis são, o que acontece se falharem – e a desenhar planos de adaptação assentes em dados, não em intuição”. Em segundo, “a ligação à operação, transformar o alerta em ação”.
Em terceiro, “e talvez o mais subestimado, o número – quase todas as organizações reconhecem hoje a ameaça climática, mas poucas a conseguem traduzir num valor concreto. E é neste último ponto que tudo se decide: entre a consciência de que há um problema e a decisão de gastar dinheiro para o resolver existe um abismo e quem o consegue atravessar com números credíveis ganha anos de vantagem. É aí que um trusted advisor faz a diferença”, enfatiza Rui Gonçalves.
“Estamos a trabalhar para que as soluções demonstradas em maio fiquem disponíveis para teste e demonstração real no Future Lab da KPMG, em Portugal – um espaço dedicado a tecnologias emergentes, da IA aos digital twins, onde empresas e entidades públicas podem validar conceitos antes de os levarem ao terreno”, assevera.
Relativamente aos agentes IA estes têm um potencial enorme para a resiliência climática, aponta.
“Um agente pode monitorizar uma rede elétrica sem descanso, cruzar anomalias com a meteorologia, acionar a proteção de ativos e coordenar a resposta – em minutos, a qualquer hora, sem esperar que alguém acorde para validar”, exemplifica.
Contudo, “a autonomia tem um preço, e o preço não é só técnico, mas também de confiança, o que nós na KPMG chamamos de Trusted AI”, o qual passa por garantir que um agente de IA age de acordo com as regras. “Em infraestruturas críticas – energia, água, transportes – gerir esta tensão assume uma relevância máxima”.
A resposta “certa não é travar a adoção”, mas “construir, ao mesmo ritmo, os travões: a supervisão, a auditoria, os limites claros que transformam autonomia em autonomia responsável”, aponta.
Usar a IA para prever e travar as alterações climáticas “exige um poder de cálculo colossal” que está em centros de dados com “uma sede de energia que não para de crescer”, admite.
A Agência Internacional de Energia estima que, em 2026, os centros de dados do mundo consumam mais de 1.000 terawatt-hora – “tanto como o Japão inteiro” e “as Nações Unidas vão mais longe: até 2030, só os centros dedicados a IA podem chegar aos 945 TWh, quase o triplo do que consomem, juntos, o Paquistão, o Bangladesh e a Nigéria – países onde vivem mais de 650 milhões de pessoas”.
Para se ter uma ideia, “uma única tarefa de IA generativa gasta, em média, 10 vezes mais energia do que uma pesquisa normal na Internet”, diz.
“A saída desta encruzilhada exige três coisas ao mesmo tempo: alimentar os centros de dados com energia limpa, desenhar modelos mais eficientes para o que realmente importa, e – a mais difícil – ter a disciplina de distinguir o uso de IA que vale o seu custo do uso que não vale”, aponta.
“E aqui em Portugal temos uma carta na mão que poucos têm: sol, vento, água, uma capacidade renovável que cresce e já coloca o país na frente da Europa. Ou seja, se há algum sítio onde a equação entre IA e clima pode fechar pelo lado certo, é aqui”, conclui.
Agência Lusa
Editado por Jornal PT Green
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