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Zero alerta que centros de dados podem contribuir para transição verde mas arriscam “ser predadores de recursos”
Segundo a ZERO, os pedidos de ligação à rede elétrica associados a data centers já representam mais de 70% da potência solicitada à REN, revelando “uma pressão sem precedentes sobre o sistema energético”.
31 Ago 2026 - 10:36
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A ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável lançou o alerta para o facto do novo enquadramento aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026 poder colocar Portugal na rota da expansão europeia de data centers, sem assegurar que estas infraestruturas contribuam para a transição climática, a eficiência no uso de recursos e o desenvolvimento equilibrado do território.
Segundo a organização, caso a procura de ponta para 41GW quadruplique para responder aos pedidos de ligação para data centers em Portugal, e supondo que essa procura seria correspondida através de produção fotovoltaica, isto corresponderia à ocupação de 3% do território nacional com painéis fotovoltaicos, a um consumo de água correspondente ao de toda a área metropolitana de Lisboa e à multiplicação por 40 da capacidade de armazenamento em baterias prevista no Plano Nacional de Energia e Clima que é de 2 GW.
“A decisão do Governo reconhece, de forma acertada, os data centers como infraestruturas críticas para a economia digital e para a competitividade. No entanto, ao privilegiar mecanismos de simplificação administrativa e atração de investimento, a resolução deixa em aberto questões fundamentais sobre o uso sustentável de energia, água e território, num momento em que a transição energética exige respostas mais estruturadas e equitativas à procura já existente de setores como os Transportes, a Indústria e os Edifícios”, afirma a ZERO em comunicado.
Além disso, a associação relembra ainda que, de acordo com a Agência Internacional de Energia e a Comissão Europeia, os data centers representam atualmente cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade, o equivalente a mais de 400 TWh por ano, podendo ultrapassar 900 TWh até 2030.
Na União Europeia (UE), o setor já consome cerca de 1,4% a 1,6% da eletricidade, com crescimento acelerado impulsionado pela inteligência artificial e pela digitalização da economia.
Em Portugal, apesar da ausência de dados oficiais consolidados, lacuna que a ZERO considera dever ser “rapidamente superada”, as projeções apontam para um cenário em que os data centers e outras cargas emergentes poderão representar até 15% a 20% do consumo elétrico nacional na próxima década, num sistema elétrico que hoje consome cerca de 53 TWh/ano.
A isto, acresce que os pedidos de ligação à rede elétrica associados a data centers já representam mais de 70% da potência solicitada à REN, revelando “uma pressão sem precedentes sobre o sistema energético”, considera a organização.
Neste sentido, a ZERO sublinha que “a questão central não é se Portugal deve acolher data centers, mas sim para que servem, em que condições operam e como se integram no território e na economia”.
Para a associação, data centers podem desempenhar um papel positivo na transição ecológica, nomeadamente ao suportar soluções digitais que aumentam a eficiência no uso de recursos, como redes energéticas inteligentes, mobilidade partilhada, otimização logística ou serviços públicos digitais.
Contudo, sem uma orientação estratégica, podem gerar um efeito “ricochete”, intensificando padrões de consumo energético e material associados a atividades de baixo valor social e/ou elevado impacto ambiental, enquanto geram pressão adicional sobre o território.
Ao competir pelo acesso à energia renovável, em particular a produzida com recurso ao solar fotovoltaico, os data centers poderão impedir indiretamente a necessária redução dos preços da eletricidade além de artificializar muitos milhares de hectares de solos que hoje nos prestam diversos serviços de ecossistemas, agravando ainda mais a situação de alarme social que já ocorre em muitas regiões, alertam.
Além disso, a ZERO considera ainda que os centros de dados acarretam o risco de “tornar as áreas de Aceleração para Renováveis claramente insuficientes face à necessidade de reduzir emissões”, em linha com o Acordo de Paris e simultaneamente de desenvolver a Estratégia Industrial Verde.
Assim, defende que a resolução aprovada recentemente “falha ao não estabelecer critérios vinculativos quanto à adicionalidade de energia renovável, ao uso de água não potável, à eficiência energética mínima, à reutilização de calor residual ou à contribuição para a flexibilidade do sistema elétrico”.
A ZERO considera ainda crítico garantir a justiça no acesso aos recursos digitais e físicos, uma vez que os data centers consomem energia, água e paisagem “que pertencem à sociedade no seu conjunto”.
Para a associação, “é essencial assegurar que estes recursos são mobilizados para atividades que promovam o bem-estar coletivo, a inovação e a coesão social”, e não apenas para a exportação de capacidade computacional ou para modelos económicos de baixa utilidade pública.
Já do ponto de vista territorial, a ZERO alerta para o risco de criação de “enclaves energéticos desligados das economias locais”. Em alternativa, defende a integração dos data centers em condomínios industriais sustentáveis, onde exista simbiose com outras atividades como aproveitamento de calor residual, produção local de energia renovável com armazenamento, utilização de água do mar ou reciclada e articulação com cadeias de valor industriais e científicas.
Para a ZERO, esta resolução do Conselho de Ministros “constitui um ponto de partida útil, mas exige uma regulamentação complementar urgente que assegure que o desenvolvimento dos data centers em Portugal não fomente uma nova expansão energética, não crie obstáculos à necessária transição energética, e que seja compatível com a proteção dos recursos naturais”, lê-se no comunicado.
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