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A quinta regenerativa do Tio Jevons
Na economia neoclássica, a Natureza entra nas contas quando é cortada, extraída ou convertida em produto, raramente entra quando é mantida viva e funcional. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence
25 Fev 2026 - 07:40
4 min leitura
Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence
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Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence
O Tio MacDonald tinha uma quinta. Ia-ia-oh.
Na economia verde contemporânea, quem a tem é o Tio Jevons.
A quinta é regenerativa, certificada e apresentada em conferências internacionais. Os solos parecem mais vivos, os relatórios mais verdes e os investidores mais tranquilos. Tudo soa harmonioso, até percebermos que a música serve para esconder uma verdade incómoda: tornar um sistema mais eficiente não o torna menos destrutivo.
No século XIX, o economista britânico William Stanley Jevons observou algo aparentemente absurdo. Quando as máquinas a vapor se tornaram mais eficientes, consumindo menos carvão por unidade de energia, o consumo total de carvão em Inglaterra não diminuiu, aumentou. Tornou-se mais barato, mais útil e espalhou-se por mais setores. A eficiência não travou o consumo, pelo contrário, acelerou!
Este efeito ficou conhecido como Paradoxo de Jevons: melhorar eficiência sem impor limites absolutos tende a aumentar o consumo total desse recurso. Não é uma falha ética: é lógica económica.
Hoje, o paradoxo repete-se com nova linguagem: chamamos-lhe sustentabilidade, regeneração, produção responsável, ecoeficiência, etc. Reduzimos impactos por hectare, por produto, por euro investido, mas, ao mesmo tempo, baixamos custos, reduzimos risco e tornamos os sistemas mais rentáveis. O resultado frequente é expansão: mais produção, mais pressão sobre terra, água e biodiversidade.
A biodiversidade não responde a métricas de eficiência; responde a espaço, continuidade e integridade ecológica. Fragmenta-se quando a paisagem se fragmenta. Colapsa quando os serviços dos ecossistemas – polinização, fertilidade dos solos, regulação hídrica, estabilidade climática local – são corroídos. Estes serviços são a verdadeira infraestrutura da economia e, sem eles, não há agricultura, nem cadeias alimentares, nem resiliência. Mas a nossa contabilidade continua a tratá-los como invisíveis e aos impactos sobre os mesmos, “externalidades”.
Na economia neoclássica, a Natureza entra nas contas quando é cortada, extraída ou convertida em produto, raramente entra quando é mantida viva e funcional. É por isso que podemos restaurar ecossistemas na Europa e, ao mesmo tempo, importar a destruição ecológica da América Latina sem que o sistema considere isso incoerente.
É neste contexto que o acordo UE–Mercosul deve ser lido. Não como um simples tratado comercial, mas como um acelerador económico num mundo de limites físicos. Ao melhorar previsibilidade e acesso ao mercado em altamente dependentes de terra — carne, soja, café, cacau — o acordo torna o investimento mais atrativo. Mesmo embrulhado em narrativas regenerativas, tende a empurrar para a expansão. Nas grandes áreas de alto valor ecológico da América do Sul e Central, isso significa mais fragmentação de habitats e mais erosão silenciosa de biodiversidade.
A União Europeia tenta responder com novas regras, como a Lei do Restauro da Natureza e a Lei da Desflorestação. São passos importantes porque reconhecem algo essencial na Economia Natural: eficiência não substitui limites ecológicos.
Mas depois surge a tentação dos mercados de compensação, sob a forma de nature credits ou similares. A promessa é mobilizar capital privado para financiar a biodiversidade, mas o risco é transformar a proteção da natureza numa moeda de troca. Quando a perda passa a ser “compensável”, regressa a lógica de Jevons: melhora-se num lado, expande-se noutro. O impacto muda de sítio, mas não desaparece.
A Economia Natural oferece outra arquitetura para o acordo UE–Mercosul:
1- Reconhecer a natureza como capital natural, não como renda gratuita: Florestas, solos, água e biodiversidade são ativos que geram serviços económicos vitais todos os anos e destruí-los é como liquidar uma fábrica para pagar salários de curto prazo.
2 – Integrar contas de capital natural e de serviços dos ecossistemas nas decisões comerciais, financeiras e de investimento: Quem degrada deve ver o seu custo refletido e quem conserva deve ser economicamente recompensado.
3 – Estabelecer limites territoriais claros à conversão de ecossistemas críticos, com consequências económicas automáticas nos acordos comerciais.
4 – Usar financiamento e mercados apenas para adicionalidade real: melhorar para além do mínimo legal, e nunca como licença para continuar a expandir.
5 – Garantir justiça económica: a América Latina presta um serviço ecológico global ao manter capital natural funcional e deve ser remunerada por isso, não apenas pressionada por regras.
Se estas escolhas forem feitas, o acordo UE–Mercosul pode contribuir para uma transição ecológica justa, estabilidade económica e proteção da biodiversidade. Se não forem, será apenas a quinta regenerativa do Tio Jevons: mais eficiente, mais verde nos relatórios — e mais destrutiva no total.
Ia-ia-oh.
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