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Porque continua a natureza invisível nas contas

A economia e a ecologia foram, há muito tempo, filhas da mesma casa, partilharam a mesma palavra grega, antes de se desentenderem e cada uma seguir o seu rumo. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI.

29 Mai 2026 - 06:17

8 min leitura

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Depois de uma semana inteira a falar de créditos de biodiversidade em quatro salas de quatro cidades de quatro distritos diferentes, em eventos que a NBI andou a organizar com o Instituto LIFE, deitei-me com a cabeça a zumbir como uma colmeia ao fim da tarde. O cansaço, esse velho contrabandista de emoções, fez o resto e ofereceu-me o sonho mais bizarro dos últimos tempos. Acordei, sem sobressalto, convencido de que o devia contar, antes que tudo se desvanecesse na espuma dos dias.

Então, sonhei que estava sentado num estúdio de rádio com cheiro a café requentado e fumo de cigarro extinto há uma década, e que do outro lado do vidro, com auscultadores grandes como conchas e a voz de veludo a escorrer pelo microfone, estava o Casey Kasem, a voz que durante décadas fez o American Top 40 e conversava com públicos de todos os pontos do globo que enviavam dedicatórias capazes de pôr meio mundo a rir e a chorar. Mas, no meu sonho, ele apresentava o Last Week on Nature Finance.

Lá fora (o que quer que “lá fora” significasse num sonho), uma janela lateral abria-se numa planície imensa e ondulada, de sombras compridas e policromáticas que sugeriam que o mundo já não era o mesmo lugar de antes.

Cá dentro (da estação de rádio e da minha mente) a contagem decrescente dos êxitos da semana, mas em vez de canções, os movimentos do dinheiro à volta da Natureza. E os convidados, sentados comodamente como se num jardim japonês estivessem, eram Paul Krugman, o economista de barbas e de Nobel no bolso, que passa os dias a explicar no Substack porque é que tanta gente continua a fazer mal as contas, e Laurie Anderson, a artista e compositora que nos mostrou O Superman e que há mais de quarenta anos transforma a tecnologia e a linguagem em perguntas, de sorriso oblíquo e o violino encostado à cadeira.

Kasem começava a sessão:

— Caros ouvintes, esta semana temos uma estreia improvável no top, uma novidade que andava a tentar entrar nas tabelas há 3,6 mil milhões de anos e só agora conseguiu, a Natureza, finalmente, a subir na tabela. E a pergunta que nos move hoje, meus caros, é só uma, porque é que ela demorou tanto a entrar, e porque é que, mesmo agora que entrou, continua quase invisível na folha de cálculo do mundo.

Indómito, Krugman não esperou pela publicidade:

— Os números são simples — disse, com aquela paciência de quem já explicou isto mil vezes. — Durante três séculos lançámos a Natureza nas contas com o valor de zero, e habituámo-nos ao zero como ao ruído de um ar condicionado de hotel, deixámos de o ouvir.

No sonho, eu via mesmo aquele zero, gordo e redondo na página de um livro de contas aberto sobre a mesa de mistura, com formigas a atravessá-lo em fila, indiferentes, como se soubessem que também os números se decompõem.

— Acontece que zero também é um preço — prosseguiu —, e foi o mais caro que alguma vez pagámos. Hoje, perto de três quartos das empresas da zona euro dependem criticamente de pelo menos um serviço dos ecossistemas, e uma fatia parecida do crédito que os bancos europeus emprestam está pendurada nessa mesma dependência, o que fez da perda de Natureza uma linha de risco que nem os supervisores financeiros conseguem continuar a fingir que não veem. A Europa já calculou que lhe faltam à volta de 65 mil milhões de euros por ano para cuidar disto, e dificilmente um orçamento público, por mais recheado que vá, fecha sozinho uma conta deste tamanho. Daí os créditos. Em julho passado, a Comissão traçou um roteiro para eles, ainda sem regras fechadas, com a promessa de as ter prontas dentro de dois anos. Estamos, portanto, no princípio, no momento em que isto deixou de valer zero e passou a valer mais do que zero, que é, como sabem, o instante exato em que tudo começa a ficar interessante.

Laurie Anderson, a velha companheira de Lou Reed, ouviu de cabeça inclinada, e quando falou foi como quem afina um instrumento. Passou o arco pelo violino uma vez, devagar, e em lugar de som soltou-se uma revoada de borboletas que se desfez no ar antes de alguém as conseguir contar.

— Reparem numa coisa — murmurou. — Medir é uma forma de ver. Também é uma forma de cegar. Andámos décadas a jurar que a Natureza não tinha preço, com a mão no peito, e demos-lhe sem querer o preço de zero, que é o mais barato de todos. Agora damos-lhe um número e ficamos aliviados, como se o número fosse os olhos que nos faltavam. A floresta já era visível ao pastor, ao melro, à criança que lhe trepa aos ramos, muito antes de precisar que alguém a certificasse.

E aqui sorriu, e cantarolou baixinho, only an expert can see the problem, only an expert can deal with the problem, antes de rematar:

— Talvez o que torne a Natureza invisível nas contas seja termos combinado que só conta quem traz uma régua. A régua é útil, não tenho dúvida. Tenho é pena de termos esperado por ela para acreditar no que já lá estava.

Recostando-se na sua cadeira de bambu, Krugman concordou com metade, que é o máximo que um economista concede em direto.

— A regra é o que importa — respondeu —, e é por isso mesmo que tem de ser honesta. Um crédito vale o que valer a confiança que o sustenta, e a confiança queima-se num minuto e reconstrói-se numa década. Quem desenha a regra fica impedido de ser quem depois aplica a régua, senão o juiz acaba sócio do réu. E isto, atenção, é uma opção entre muitas, e seria tolice tomá-la pela redenção de coisa nenhuma. Pedir aos créditos que salvem a Natureza sozinhos é como pedir ao termómetro que cure a febre.

Foi então que Kasem, com arte de DJ experiente e os olhos a piscar repetidamente de espanto, anunciou a parte do programa por que muita gente esperava, a long-distance dedication.

— Esta vai para uma ouvinte distante — dizia, com a voz enrolada à espuma negra que protege o micro —, uma entidade tão antiga como o tempo, que nos ouve há demasiadas eras à espera da sua vez. E reparem na palavra que lhe vou dedicar, queridos, porque ela traz o segredo todo lá dentro. Crédito vem do latim credere, crer, confiar. Acreditar e dar crédito são, na origem, a mesma coisa. Um crédito de Biodiversidade ou de Natureza é, no fundo, um ato de confiança que aprendeu a dominar a perceção do valor real e a fazer contas. A pergunta, caríssima, é se desta vez seremos dignos da sua confiança.

E pôs a tocar Only an Expert, da própria Laurie Anderson, em vinil, claro, e a Laurie sorriu para mim através do vidro como quem sabe um final que não conta. Enquanto o tema debitava e fazia saltar as agulhas, o estúdio começou a parecer mais uma miragem num deserto gelado, as paredes abriam-se e a planície lá fora escorria como uma maré sem pressa, até me chegar aos pés.

Acordei sereno num quarto que me embalava, estava em casa. O programa terminara e só ficara a estática que se ouve entre frequências de FM mal sintonizadas, mas a pergunta ficou pousada na almofada, na persistência da memória. A economia e a ecologia foram, há muito tempo, filhas da mesma casa, partilharam a mesma palavra grega antes de se desavirem ou desentenderem e cada uma seguir o seu rumo (pensavam elas). Talvez seja disto que falamos, sem darmos por isso, quando dizemos que queremos uma Economia Natural, de fazer a casa caber outra vez inteira dentro das contas, com a vida lá dentro e não à porta. Estaremos mais perto?

Tento discorrer se há alguma luz da manhã que se avizinha a espreitar entre cortinas e penso nas quatro salas das quatro cidades dos quatro distritos daquela semana, no banqueiro, no autarca, no agricultor, na engenheira e na especialista em sustentabilidade, nas vozes que vieram do Brasil, e na entidade distante a quem Kasem dedicara a canção (que já lhe pertencia). E acredito que sim.

Acredito, como o sonho fez questão de me relembrar, que dar crédito e acreditar são, desde o latim, a mesma palavra lida de dois lados. Ambos os lados da mesma moeda, e da mesma economia. Naturalmente.

PS:

Quem é Casey Kasem https://medium.com/the-riff/sunday-afternoons-with-casey-kasem-and-american-top-40-040500ecdfed
Laurie Anderson, Homeland, ‘Only an Expert’ https://www.youtube.com/watch?v=g_JQshF4MK8

A voz de Paul Krugman https://paulkrugman.substack.com/

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