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Se as renováveis são tão baratas, porque é que a fatura de eletricidade não baixa

O preço grossista da eletricidade em Portugal caiu 42,8%. Mas a fatura que chega a casa continua igual. O problema já não é gerar energia limpa é como operar um sistema dominado por ela e sem gás natural nem carvão. Por João Correia, especialista em desenvolvimento de projetos de energia renovável

01 Jun 2026 - 06:41

7 min leitura

João Correia, especialista em desenvolvimento de projetos de energia renovável

João Correia, especialista em desenvolvimento de projetos de energia renovável

Todos os meses chegam notícias animadoras sobre a energia renovável em Portugal. O país já produz mais de 70% da sua eletricidade a partir de fontes limpas, e o sol e o vento não têm qualquer custo de captação. Os painéis fotovoltaicos e as turbinas eólicas nunca foram tão baratos nem tão eficientes como são hoje, em 2026.

Depois chega a fatura de eletricidade a casa e a questão regressa inevitavelmente. Se a energia em si está a ficar mais barata todos os anos, porque é que continuamos a pagar o mesmo ou até mais? A resposta é mais interessante do que parece e revela um dos maiores pontos cegos da transição energética. E cabe em duas frases: hoje, a fatura não desce porque o backup do sistema ainda é gás natural. Só quando as baterias e a bombagem hídrica substituírem esse gás é que o preço baixo das renováveis chegará ao bolso dos portugueses.

A história que contam e a história que se omite

Comecemos pelos factos, o regulador ERSE publicou o seu Boletim de Commodities do primeiro trimestre de 2026. O preço grossista da eletricidade em Portugal caiu 42,8% face ao trimestre anterior, para uma média de apenas 40,8 €/MWh. As renováveis forneceram 79% do consumo em Portugal continental. Até aqui, tudo bem.

Mas no mesmo período o gás natural subiu 34,5% nos mercados europeus, o petróleo subiu 27,1% com a tensão no Médio Oriente e o carvão inverteu a tendência de descida com uma subida de 13,7%. O gás e o carvão subiram, mas a eletricidade em Portugal desceu. Isto não corresponde às regras tradicionais dos mercados elétricos europeus.

Durante décadas, o preço da eletricidade esteve colado ao preço do gás: gás sobe, eletricidade sobe, sem exceções. Essa relação está a quebrar porque as renováveis se tornaram dominantes no mix diário de geração. O mecanismo de formação de preços no mercado grossista está a transformar-se, mas a maioria dos consumidores ainda não vê essa mudança refletida na fatura.

Porque é que a fatura não baixa?

No mesmo relatório, o regulador revela que os custos de regulação aumentaram 72% num único trimestre, adicionando mais 21,3 €/MWh ao preço da energia. Mas esse é o valor médio, os dados da REN mostram que os encargos dispararam para 29,13 €/MWh em fevereiro, antes de moderarem para 22,29 euros em março. Antes de 2024, estes custos andavam abaixo dos 10 euros.

O presidente da ERSE, Pedro Verdelho, reconheceu publicamente que esta trajetória é uma preocupação. Em março de 2026, a EDP, a Galp e dezenas de outras empresas ibéricas enviaram uma carta conjunta aos governos de Portugal e Espanha a alertar para a escalada. Como resumiu o especialista António Vidigal, o gás não está a marcar o preço, mas continua presente na fatura. Isto porque as centrais de ciclo combinado continuam ligadas para fornecer segurança ao sistema, e esse serviço custa cerca de 20 €/MWh.

A realidade invisível de gerir um sistema elétrico moderno

Imagine uma empresa de entregas cujos estafetas só trabalham quando há sol. Quando está sol, a oferta é abundante e barata. Quando fica nublado, os estafetas desaparecem e é preciso chamar reforços que custam mais, porque estão disponíveis a qualquer hora independentemente do tempo. A fatura total inclui o custo desses reforços.

No sistema elétrico português, esses reforços são as centrais de ciclo combinado a gás natural. Estão permanentemente prontas a arrancar quando o vento para ou o sol se põe, garantindo que as luzes nunca se apagam. O problema é que queimam gás natural, que ficou 34,5% mais caro este trimestre. Sempre que o sistema precisa delas, o custo é elevado. Na fatura, este custo não aparece na rubrica de energia. Aparece nos custos de regulação, uma linha que quase ninguém lê e que está a crescer a um ritmo preocupante.

Juntemos as peças. A boa notícia é que as renováveis determinam o preço da eletricidade durante muitas horas do dia, e esse preço é muito baixo. A má notícia é que, quando não chegam, o sistema chama as centrais a gás para cobrir a diferença. Essas centrais são caras de operar e o seu combustível está a ficar mais caro. O custo desse serviço de reserva aparece nos encargos de regulação. O que parece uma independência dos combustíveis fósseis é, na realidade, apenas metade da história: o custo do gás natural está a ser transferido do preço visível da energia para os encargos de regulação, onde permanece invisível para a maioria dos consumidores.

Devemos então construir menos renováveis?

Seria uma leitura errada. A solução não é abrandar as renováveis, é mudar o que fornece a reserva ao sistema. É necessário deixar de depender do gás natural como seguro da rede elétrica.

As baterias de grande escala armazenam o excesso de solar e eólico e libertam-no quando o sistema precisa. Reagem em milissegundos e não consomem combustível. A gestão da procura permite que fábricas e centros de dados reduzam o consumo sob pressão, recebendo compensação por essa flexibilidade. Melhores interligações aproximariam a Península Ibérica do resto da rede europeia. O armazenamento por bombagem hidráulica é a tecnologia mais madura de grande escala. O que todas estas soluções têm em comum é que substituem o gás por melhor tecnologia, sem combustível volátil e caro. Precisam de regulação sensata e investimento inicial para se tornarem uma realidade alargada.

A conclusão é direta. O custo da transição energética já não está nos megawatt-hora de geração renovável que construímos. Esse problema está resolvido e os custos continuam a descer. O custo está agora na flexibilidade de que o sistema precisa para operar de forma fiável. Construir um parque solar é cada vez mais barato. Garantir que as luzes se mantêm acesas quando o sol se põe é cada vez mais caro, porque estamos a usar a tecnologia errada.

Enquanto a flexibilidade for fornecida pelo gás natural, é o preço do gás que determina o custo nesses momentos críticos. E o consumidor paga essa fatura nos encargos de regulação e nas tarifas de rede. Um preço que não depende do sistema elétrico ibérico, porque 58% do GNL que chega à Europa vem do Golfo do México. Basta um furacão, uma crise no Estreito de Ormuz ou uma decisão de Washington para o disparar.

O problema já não é produzir energia limpa, porque nisso somos muito competentes. O problema é que, enquanto o backup for gás natural, é o preço do gás que manda na fatura. Baterias, bombagem hídrica e gestão da procura são tecnologias maduras, testadas e prontas a escalar. Não se constroem sozinhas, porque precisam de investimento, de regulação que as priorize e de vontade política. O debate não é se devemos continuar a instalar renováveis, porque essa resposta já é óbvia. O debate é quanto tempo vamos demorar a trocar o gás por baterias como seguro do sistema.

Porque a fatura dos portugueses só vai começar a descer no dia em que essa substituição for real.

Fonte dos dados: Boletim de Commodities ERSE, primeiro trimestre de 2026

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