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Carros elétricos abaixo dos 20 mil euros estão a redefinir mercado global e a pôr indústria europeia em risco

Federação Europeia para Transportes e Ambiente alerta que o conflito no Médio Oriente está a acelerar procura por veículos elétricos a preços competitivos. Ásia e América do Sul impulsionam procura de veículos chineses.

25 Mai 2026 - 05:26

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Foto: Magnific

Foto: Magnific

A procura por carros elétricos está a acelerar a nível global motivada também pelo conflito no Médio Oriente, que fez disparar o preço dos combustíveis fósseis. Porém, os fabricantes europeus de automóveis podem ficar de fora do deste ‘boom’ global, já que a procura está a incidir sobretudo sobre veículos elétricos abaixo dos 20 mil euros, disponibilizados maioritariamente pelos fabricantes chineses, e impulsionada pelos mercados asiático e sul-americano, alerta a Federação Europeia para Transportes e Ambiente (T&E).

“À medida que o conflito no Médio Oriente se intensifica e os preços elevados do petróleo fazem sentir o seu impacto, os carros elétricos a bateria estão rapidamente a tornar-se a opção mais barata e melhor”, refere Julia Poliscanova, diretora sénior de Cadeias de Abastecimento de Veículos e Mobilidade Elétrica da T&E. Sublinhando que mesmo antes da guerra no Irão estavam a optar por estes veículos.  Nomeadamente, segundo a T&E, a nível global, um em cada quatro compradores de automóveis adquiriu um veículo elétrico (incluindo híbridos plug-in) em 2025.

Na verdade, a Ásia e a América do Sul são os mercados de veículos elétricos a bateria (BEV, na sigla inglesa) com crescimento mais rápido. As quotas de vendas na Indonésia, Tailândia e Vietname foram superiores às da Europa no ano passado, variando entre 18% na Indonésia e 34% no Vietname. E, embora ainda sem os mesmos volumes, o crescimento anual do mercado de BEV no Brasil, Índia e México foi superior ao da China em 2025.

“A procura existe claramente. No entanto, os vencedores dos mercados de veículos elétricos em rápido crescimento nas economias emergentes têm sido, até agora, os fabricantes chineses: BYD, Chery, SAIC e outros”, refere Julia Poliscanova, detalhando que mais de 70% dos BEV vendidos em 2025 na Indonésia, México e Tailândia vieram de fabricantes chineses. “Esse valor sobe para mais de 90% no Brasil, um mercado que até recentemente era dominado por fabricantes europeus como a Fiat. Até na África do Sul, bastião durante décadas de marcas europeias como a VW, as marcas chinesas estão em ascensão, tendo atingido 40% do mercado de BEV no ano passado”, sublinha.

A atratividade dos carros elétricos a bateria deverá aumentar ainda mais, especialmente na Ásia. A região é a mais afetada pela crise energética causada pelo encerramento do Estreito de Ormuz e está rapidamente a implementar políticas para reduzir a dependência do petróleo importado.

Os dois caminhos para os fabricantes europeus

Se as tendências atuais continuarem, os fabricantes europeus perderão quota de mercado em muitos mercados automóveis importantes, alerta a T&E.

Por exemplo, “se a dinâmica atual do mercado de BEV se mantiver no Brasil, os fabricantes chineses irão superar os europeus numa proporção de 17 para 1, vendendo mais 100 mil veículos elétricos a bateria em 2030, face a apenas 5 mil de crescimento para marcas europeias. Do mesmo modo, na Tailândia, as marcas europeias venderão 45 vezes menos BEV do que os seus concorrentes chineses, aumentando as vendas em apenas 6.000 unidades em 2030”, indica a responsável.

No entanto, a análise da T&E sobre quotas de mercado globais de BEV na UE e na China mostra que, se os fabricantes europeus lançarem os modelos compactos elétricos acessíveis anunciados para os mercados emergentes sem atrasos, a sua situação pode inverter-se. Por exemplo, no Brasil, poderão aumentar as vendas em mais de 36 mil unidades, capturando parte da quota atual dos fabricantes chineses. “Esta recuperação é possível devido à forte notoriedade das marcas automóveis ocidentais junto dos consumidores. Mas a grande questão é se esses modelos acessíveis chegarão ao mercado a tempo”, questiona Julia Poliscanova.

A federação destaca ainda que a razão pela qual um número crescente de modelos acessíveis de marcas como a Renault, Fiat e VW está a ser vendido na UE atualmente prende-se com as metas climáticas de 2025 do bloco, que exigem maiores vendas de veículos elétricos.

“À medida que se aproximam as regras mais rigorosas de 2030, será necessário mais investimento em veículos elétricos e produção em escala por parte dos fabricantes. As economias de escala resultantes permitirão produzir modelos elétricos acessíveis necessários para os mercados emergentes”, destaca a responsável. Porém, alerta que estas regras e o investimento na expansão da produção de veículos eletricos estão em risco, visto que muitos fabricantes, bem como os governos italiano, alemão e alguns da Europa de Leste, querem flexibilizar essas regras. “Isto significaria menos investimento na transformação de fábricas e na construção de cadeias de abastecimento de baterias, resultando em lançamentos de modelos mais atrasados, menos exportações e perda de quota de mercado global”, critica Julia Poliscanova.

E finaliza: “O mundo está a eletrificar-se, com ou sem a indústria automóvel europeia. Não existe uma política industrial automóvel europeia bem-sucedida sem exportações de automóveis. As decisões que os políticos europeus tomarem nos próximos 12 meses irão determinar se os fabricantes terão modelos para exportar para as economias globais que procuram reduzir a sua dependência das importações de petróleo”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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