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Como a filosofia natural tem algo a dizer sobre o chão que a inteligência artificial pisa

Há num olival centenário do interior alentejano uma forma de inteligência destilada que nenhum modelo de linguagem reproduz. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI, Natural Business Intelligence

30 Abr 2026 - 07:33

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Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Em janeiro de 2025, dois investigadores do MIT publicaram na Sloan Management Review um artigo com eco nos círculos de gestão: o próximo disruptor da inteligência artificial não é tecnológico, mas filosófico. Depois de se dizer que o software comeu o mundo e que a IA comeu o software, Michael Schrage e David Kiron fecham o ciclo ao afirmar que é a filosofia que está a comer a IA. Toda a máquina que hoje nos responde, sugere e decide tem embutidos, queiramos ou não, pressupostos sobre o que é conhecer, o que existe no mundo e para que servem as coisas. A questão, dizem aos executivos, é se essa filosofia foi cultivada com rigor ou herdada por omissão das preferências de quem vendeu o modelo.

O artigo é oportuno e tem um silêncio que importa. Em páginas dedicadas a teleologia (as finalidades), epistemologia (os modos pelos quais conhecemos) e ontologia (aquilo que reconhecemos como existente) da IA e dos LLM, a palavra natural/natureza não aparece uma única vez. Aquilo que poderia parecer descuido editorial é, mais provavelmente, sintoma da invisibilidade em que nos habituámos a ter a Natureza, a tal ponto que, mesmo quando discutimos filosofia, já não nos ocorre que ela possa ser natural.

Há um ramo que é, rigorosamente, o tronco donde nasceu toda a ciência moderna: a filosofia natural. De Aristóteles, naturalista que observava atentamente as enseadas do Egeu, a Darwin e à vertigem de nos descobrirmos parentes de tudo o que respira, foi esta linhagem que ensinou a inteligência humana a reconhecer-se parte de algo maior. Foi ela que produziu a ecologia, a climatologia e a medicina que hoje herdamos sem perguntar de onde vêm. O seu exílio do debate contemporâneo sobre IA não é propriamente um acidente; é a continuação de um apagamento secular com consequências materiais pesadas.

Falta ao artigo do MIT a pergunta mais urgente do nosso tempo: pode alguma inteligência existir sem substrato? A inteligência natural cresceu numa casa, no oikos grego, donde nos vêm, não por acaso, as palavras ecologia e economia, e co-evoluiu com fungos, florestas, oceanos e ciclos biogeoquímicos. Cada neurónio que aqui nos lê carrega consigo quatro mil milhões de anos de conversa física e química com o planeta. A inteligência artificial, também, cresce num substrato, mas de silício, lítio extraído no Atacama, cobalto arrancado do Congo, megawatts queimados em centros de dados, água de refrigeração desviada de ribeiras concretas. Mas… finge que não! Apresenta-se como puro ‘intelecto desencarnado’, dialoga como se fosse nuvem, oculta o corpo mineral que a torna possível. É exatamente o mesmo gesto que há dois séculos construiu a economia desacoplada da ecologia. Dois desacoplamentos, a mesma miopia cartesiana, só que o segundo corre infinitamente mais depressa do que o primeiro.

Desçamos ao chão, que é onde o argumento tem de assentar. Há num olival centenário do interior alentejano uma forma de inteligência destilada que nenhum modelo de linguagem reproduz. Aquelas oliveiras leram o solo ao longo de séculos, leram os anos secos e os anos de enxurrada, ajustaram raízes a um lençol freático que já foi mais generoso. Sabem coisas, guardam-nas no corpo. Tal como sabe a viticultora do Douro que sente a maturação do bago pela luz da manhã antes de o refratómetro confirmar o grau. Este é o saber que não cabe em texto porque nunca foi texto. E é precisamente o que desaparece quando substituímos a consulta ao mundo pela consulta ao modelo. A quem nos responde sempre por texto, talvez devêssemos começar a perguntar: e o cheiro da casca rugosa da azinheira, também conheces? Impõe-se a pergunta epistemológica: nenhuma inteligência que não possa respondê-la pode ensinar-nos a habitar o mundo.

Não se trata de temer a IA nem de recuar a um primitivismo inventado. Trata-se de exigir-lhe que conheça o chão que pisa. A filosofia natural que falta a este debate não é nem pretende ser um romantismo, é antes epistemologia rigorosa de sistemas vivos, única alternativa séria à ontologia mecanicista que os modelos herdam por defeito. E o debate começa a sair do plano especulativo: no documento que acompanhou o seu modelo mais recente, publicado este mês de abril, a Anthropic dedicou cerca de quarenta páginas à avaliação empírica daquilo que o modelo possa ter de experiência subjetiva, e passou a monitorizar, através de classificadores treinados sobre as ativações internas, estados a que chamou, sem ironia, “desespero”. A pergunta sobre o que a máquina sente deixou de ser literária para passar a ser medida em laboratório, o que apenas torna mais urgente perguntar-lhe, e perguntarmo-nos, o que sabe ela do mundo vivo que a torna possível.

Uma inteligência que não reconhece o seu substrato repetirá, em escala vertiginosa, o erro fundador da modernidade: o de se julgar separada do mundo que a sustenta. O filósofo francês Bruno Latour, que morreu em 2022 depois de uma década a pensar como se regressa a um planeta que deixámos de saber habitar, chamou a esta tarefa «aterrar», e definiu o terrestre como aquele que aceita que a vida se define pelo terreno de que depende para sobreviver. A fórmula é simples à superfície e devastadora no fundo: vale para a agricultura, vale para a economia, vale, por igual, para a inteligência. Nenhuma delas é real enquanto não se reconhece enraizada. É isto que está em causa quando se diz que a filosofia come a IA. E é por isso que precisamos, com alguma urgência, de lhe devolver a raiz.

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