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Vamos continuar a reciclar o passado ou reutilizar o futuro?

Uma economia centrada quase exclusivamente na reciclagem pode estar a atrasar a transição para modelos mais eficientes, como a reutilização. Por Ana Matos Almeida, presidente da Circular Economy Portugal

11 Jun 2026 - 06:03

6 min leitura

Ana Matos Almeida, presidente da Circular Economy Portugal

Ana Matos Almeida, presidente da Circular Economy Portugal

Durante décadas, habituámo-nos a olhar para a reciclagem como o pilar central da economia circular: não apenas uma responsabilidade ambiental, mas também uma forma de maximizar o valor económico de materiais como o alumínio, o plástico e o vidro. E, de facto, foi e continua a ser essencial. Desde os anos 90, impulsionada por metas europeias, sistemas de responsabilidade alargada do produtor e uma pedagogia pública eficaz, a reciclagem tornou-se num mercado avaliado em cerca de 64 mil milhões de euros na Europa em 2025 e num gesto quotidiano para milhões de portugueses. É um modelo de negócio baseado no volume, dependente do consumo contínuo e da produção permanente de resíduos.

Mas será suficiente na década que vivemos?

A resposta curta é não. E mais: uma economia centrada quase exclusivamente na reciclagem pode estar a atrasar a transição para modelos mais eficientes, resilientes e economicamente inteligentes, como a reutilização.

Em Portugal, esta urgência é particularmente evidente: em 2024 foram produzidas 5,55 milhões de toneladas de resíduos urbanos, cerca de 517 kg por habitante por ano, e 54% dos resíduos urbanos ainda tiveram como destino o aterro.

Claro que nem tudo pode ser reutilizado. Há produtos cujo estado, degradação ou perigosidade inviabilizam uma segunda vida, como baterias com baixo desempenho residual. Nestes casos, a reciclagem é não só necessária como indispensável. Mas essa constatação não pode servir de argumento para manter a hierarquia invertida. A reutilização deve ser a prioridade sempre que possível, e a razão é simples: maximiza valor.

Enquanto a reciclagem recupera matéria-prima, muitas vezes com perda de qualidade e elevado consumo energético, a reutilização mantém produtos, componentes e funções no seu nível mais elevado de utilidade. É, por definição, uma estratégia mais eficiente. Um telemóvel recondicionado, uma embalagem reutilizada, uma peça automóvel remanufaturada: todos representam valor económico, energético e material que não foi desperdiçado.

Ainda assim, continuamos maioritariamente a estruturar políticas públicas, cadeias logísticas e modelos de negócio como se a reciclagem fosse o destino preferencial.

Isto acontece porque a reciclagem encaixa confortavelmente na economia de volume. Permite continuar a produzir, consumir e descartar, apenas acrescentando uma etapa de recuperação no fim da linha. A reutilização pelo contrário é disruptiva. Questiona a produção contínua, desafia modelos lineares e exige uma economia baseada no uso, no desempenho e na longevidade.

Mas o contexto mudou. As alterações climáticas já não são um cenário distante: nos últimos dias, o Reino Unido bateu recordes históricos de temperatura em maio, e o Met Office estima que ultrapassar o anterior recorde seja hoje cerca de três vezes mais provável devido às emissões humanas. O impacto não é abstrato: chega ao quotidiano, quando comboios abrandam ou são cancelados e quando supermercados deixam de conseguir manter frigoríficos e arcas a funcionar durante uma vaga de calor.

Perante este novo contexto, continuar a depender de modelos assentes em extração, produção contínua e descarte é também uma fragilidade económica. Recursos finitos e crises globais sucessivas expõem dependências. Uma das maiores reservas de matérias-primas estratégicas, incluindo metais críticos e terras raras, já se encontra na Europa: incorporada nos produtos que utilizamos diariamente. Reutilizá-los, repará-los e mantê-los em circulação é também uma forma mais rápida de reforçar a nossa soberania material e a nossa resiliência.

Está na altura de deixarmos de destruir produtos para recuperar materiais e aprendermos a preservar valor em circulação.

Veja-se o Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens, o PPWR, aplicável a partir de 12 de agosto de 2026, com metas de redução, reutilização e reciclabilidade, bem como restrições a PFAS em embalagens alimentares. Ainda assim, várias empresas, das quais três portuguesas, terão pedido à Comissão Europeia o adiamento e a reabertura do regulamento, enfraquecendo medidas essenciais de prevenção e reutilização. É paradoxal que empresas com capacidade para fazer lobbying contra legislação aprovada democraticamente não mostrem a mesma urgência em inovar, redesenhar sistemas e resolver, de forma colaborativa, a crise de embalagens que ajudaram a criar.

A transição para modelos de reutilização não acontecerá apenas através de campanhas de marketing ou projetos-piloto. Exige compromisso regulatório, investimento e coragem política, incluindo por parte dos setores económicos que mais beneficiam da atual economia descartável.

Exemplos concretos já existem. A Empresa de Cervejas da Madeira opera na ilha com embalagens reutilizáveis, tanto no retalho como no canal HoReCa. A Refurbed rentabiliza eletrónicos recondicionados com equipamentos inspecionados e garantia, provando que há escala para modelos assentes na reparação, no recondicionamento e no prolongamento da vida útil dos produtos. O Direito à Reparação, com transposição prevista para julho de 2026, poderá também facilitar a reparação pós-garantia de smartphones e eletrodomésticos, garantir peças mais acessíveis e prolongar a vida útil dos produtos, evitando o descarte prematuro.

O que falta então para escalar a chamada economia da reutilização? Falta design para múltiplos ciclos, com produtos mais robustos, modulares e fáceis de desmontar desde a origem. Falta organizar melhor a circulação de produtos através de retomas, recolhas e logística inversa otimizada. Falta também clareza: nem tudo o que é apresentado como “reutilizável” funciona, na prática, como reutilização. A reutilização exige sistemas de retorno, reparação, recondicionamento, redistribuição e recirculação. Sem estes circuitos, corremos o risco de substituir uma lógica descartável por outra apenas aparentemente mais circular.

Enquanto não reconhecermos a reutilização como um pilar complementar e prioritário, continuaremos a perder valor, competitividade e autonomia.

A economia circular não se faz apenas reciclando melhor. Faz-se, sobretudo, evitando que os produtos se tornem resíduos. Talvez seja tempo de inverter a lógica. Por isso, este mês foi lançado o “Reuse Portugal Coalition”, uma iniciativa estratégica multissetorial que visa acelerar a transição para uma economia de reutilização no país.

Queremos continuar a reciclar o passado ou começar a reutilizar o futuro?

 

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