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Crédito e clima: a nova realidade do mercado imobiliário

A eficiência e a resiliência climática tornam-se cada vez mais fatores económicos incontornáveis. Por Rui Lopes, CEO da Simplefy.

02 Out 2025 - 07:24

4 min leitura

Rui Lopes, CEO da Simplefy

Rui Lopes, CEO da Simplefy

O crédito imobiliário está a passar por uma transformação silenciosa, mas profunda. Para além das taxas de juro e da capacidade financeira dos mutuários, um novo fator começa a pesar nas decisões de financiamento: o impacto das alterações climáticas. O que antes era considerado uma preocupação distante ou meramente ambiental é hoje um elemento concreto na equação do risco financeiro, que molda as políticas de crédito e influencia diretamente o valor dos imóveis.

O setor do crédito, sempre dos primeiros a reagir a ambientes externos voláteis, está a ser profundamente moldado por esta nova realidade. Dados recentes do Banco de Portugal revelam que mais de 90% do crédito a empresas está exposto a riscos climáticos, como stress hídrico, stress térmico e incêndios, e 39% a risco de inundações. Esta exposição crítica não se limita às empresas; reflete-se, inevitavelmente, no mercado imobiliário e, por conseguinte, no crédito à habitação.

A incerteza gerada por estes riscos leva a uma maior prudência por parte dos bancos e, consequentemente, a critérios mais apertados na concessão de crédito. O último Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito do Banco de Portugal indica que cinco bancos portugueses já aplicam critérios menos restritivos para imóveis com bom desempenho energético e mais restritivos para aqueles com fraco desempenho. Esta tendência, que se traduz em condições de financiamento diferenciadas, demonstra que a eficiência energética deixou de ser um mero detalhe para se tornar um fator económico tangível.

O crescimento do ‘crédito verde’ é um testemunho desta transformação. Alguns bancos reportam que uma fatia significativa dos seus novos empréstimos para habitação já são ‘verdes’, entre 20% e 27%. Este é um sinal claro de que há uma procura real por imóveis sustentáveis e que o mercado está a adaptar-se.

A realidade portuguesa é complexa. Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente, o número de edifícios localizados em áreas suscetíveis a inundações passou de 13 852 em 2011 para 26 540 em 2021 – um aumento de quase 100% numa década. Mais alarmante ainda é que estas zonas de risco não estão concentradas numa única região: foram identificadas 63 zonas com risco potencial significativo de inundação (47 fluviais e 16 costeiras) distribuídas por 102 municípios portugueses – em zonas que afetam diretamente mais de 102 905 habitantes. Estes números revelam um agravamento do risco territorial que não pode ser ignorado na análise de crédito imobiliário.

A literacia financeira, que em Portugal ainda se encontra abaixo da média europeia, agrava estas diferenças. O 4.º Inquérito à Literacia Financeira do Banco de Portugal e da CMVM indica que apenas cerca de dois quintos dos portugueses demonstram preocupação com investimentos sustentáveis. Tendo em conta que as decisões de crédito habitação estão cada vez mais ligadas a fatores ambientais, estes dados sinalizam uma clara necessidade de um aconselhamento orientado à sustentabilidade financeira e energética.

Olhando para o futuro, o fator climático do BCE, que entra em vigor no segundo semestre de 2026, é um marco importante. As garantias no Eurosistema passarão a ter um fator climático que pode reduzir o valor elegível dos ativos em função do risco. Esta medida sublinha a urgência de uma preparação atempada para ajustar a avaliação de garantias e as políticas de risco. A eficiência e a resiliência climática tornam-se cada vez mais fatores económicos incontornáveis.

Portugal não pode evitar os ventos que vêm de fora, mas pode e deve navegar com mais segurança. Num tempo em que o crédito exige mais atenção do que nunca, a chave está na preparação, no conhecimento e na capacidade de agir com clareza, mesmo em momentos de maior turbulência. Os intermediários de crédito, com a sua expertise e proximidade, têm o papel fundamental em capacitar os consumidores para tomarem decisões informadas e sustentáveis, que garantam não só a sua estabilidade financeira, mas também a resiliência do nosso mercado imobiliário face aos desafios climáticos.

 

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