Subscrever Newsletter - Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Submeter

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade

6 min leitura

Do pato ao falcão: uma breve história da precisão estratégica

Tanto a TNFD como a CSRD pedem que compreendamos dependências e impactos ao longo da cadeia de valor, que mapeemos riscos físicos e de transição e que reportemos com critério. No entanto, muitas organizações respondem com um catálogo de boas intenções. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

07 Out 2025 - 07:16

6 min leitura

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

Há empresas que se parecem com patos. Têm uma estratégia de Natureza que nada, anda e voa, simultaneamente. Há um programa de voluntariado ao sábado, uma horta pedagógica ao lado do parque de estacionamento, um piloto de Soluções Baseadas na Natureza (NBS) na fábrica X, e uma parceria científica com uma universidade cujo nome todos baralham. O calendário está cheio, a equipa está orgulhosa e a biodiversidade… aguarda melhores dias. Se o pato pudesse escrever, fazia o relatório de sustentabilidade.

O falcão vê o mesmo mundo e faz outra coisa. Sobe, observa a paisagem inteira, identifica padrões, cursos de água, vento, sombras, movimentos, e depois escolhe um ponto. O momento é quase sério de mais para descrever: há uma contração do mundo, um túnel de foco, e um ataque que dura menos do que um parágrafo. O falcão não é minimalista por estética; é porque aprendeu que a natureza recompensa a precisão. As empresas, quando falham, raramente é por falta de visão; é por excesso de dispersão.

Nos últimos anos, fomos convidados a olhar para a natureza com óculos completos. Tanto a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) como a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) pedem que compreendamos dependências e impactos ao longo da cadeia de valor, que mapeemos riscos físicos e de transição e que reportemos com critério. E, no entanto, muitas organizações respondem com um catálogo de boas intenções: dezenas de iniciativas que parecem uma feira de soluções. É a versão ecológica do “fazemos tudo”. O pato aplaude. O falcão sorri, abana a cabeça e continua a voar.

O problema não é a ambição 360º, essa é indispensável. O problema é confundir visão ampla com ação ubíqua. A visão 360º é um mapa; a execução 360º é um engarrafamento. O que faz a diferença, na prática, é a coragem de escolher. Quando uma empresa anuncia vinte prioridades está a confessar que não tem nenhuma. E quando comunica resultados sem ter desenhado metodologias de medição, reporte e verificação (MRV), desde o início, está a escrever ficção especulativa. Entretenimento não é estratégia.

Numa linguagem mais seca, o falcão trabalha com dois eixos: impacto e controlo. Em cada território e cadeia de fornecimento, há pontos onde a ação própria desloca a agulha, os tais lugares de alto impacto com alto controlo. Esses são para já. Existem outros, de alto impacto e baixo controlo, que pedem influência: cláusulas em contratos, finança de transição, cooperação em bacia hidrográfica. Tudo o resto é ruído operacional ou fotografia para relatório. A diferença é quase moral: onde posso agir, ajo; onde não controlo, mudo as regras do jogo; onde é pequeno, deixo de fingir.

Mas a precisão não se esgota na escolha das frentes. Também vive na forma como traduzimos frases inspiradoras para o quotidiano da operação. Objectives & Key Results (OKR) ajudam quando não são poesia: um objetivo com dono único, orçamento, cronograma e dois ou três resultados-chave que qualquer pessoa consegue medir sem precisar de uma comissão técnica. Se o objetivo é travar a conversão de habitats prioritários nos fornecedores Tier 1 e Tier 2, que assim seja: percentagem verificada, auditoria externa, consequências contratuais. Procurement não é o parente pobre; é o lugar onde a ecologia encontra a tesouraria. E já agora, a remuneração variável de quem decide deve ter uma componente ligada à natureza (5–10% faz milagres onde os slogans falham).

Há uma objeção frequente: “Sim, mas o tema é complexo, temos muitos stakeholders, é preciso começar por sensibilizar.” Concordo. A literacia é importante. E, precisamente por isso, a primeira aprendizagem deveria ser esta: parar é uma decisão estratégica. Encerrar programas simpáticos que não movem resultados é um ato de “higiene organizacional”. Não é cinismo; é foco. Os falcões não colecionam iniciativas como quem coleciona cromos.

“E a narrativa?”, perguntará o departamento de comunicação. A narrativa vem por acréscimo. O melhor storytelling do mundo chama-se evidência. Quando o MRV está montado desde dia zero, o ciclo de aprendizagem acelera: testar, medir, ajustar, escalar. De repente, o relatório da CSRD deixa de ser uma maratona de anexos e passa a ser uma demonstração com números: hectares sob gestão regenerativa verificada, populações de espécies com alto valor de conservação salvaguardadas, percentagem de fornecedores críticos com “No Conversion”, variação do índice de água azul/verde por unidade de produto, risco evitado em euros por ano. Curiosamente, quando a empresa consegue dizer “fizemos três coisas e resultaram nestes quatro efeitos”, o mercado ouve. O ruído da multidão cala-se perante uma ideia simples explicada com dados.

Há também a questão do tempo. O falcão usa lentes bifocais: horizonte e instante. Nas organizações, isso traduz-se em ciclos curtos com direção longa. Um ano é razoável para sair do PowerPoint. Nos primeiros 90 dias, escolhe-se o território, clarificam-se os resultados e fecha-se a carteira de prioridades. Nos 90 seguintes, alinham-se contratos, CAPEX e pilotos com linha de base. Nos 180 finais, escala-se o que provou valor e encerra-se o resto. Publica-se com transparência, não com exuberância. E recomeça-se, porque sistemas vivos são iterativos.

Se tudo isto parece exigente é porque é mesmo. É mais fácil ser pato. O pato permite-nos ser simultaneamente generosos, fotogénicos e permanentemente ocupados. O falcão, esse ‘chato’, força-nos a perguntar: qual é o ponto exato onde uma decisão hoje protege valor económico e natural nos próximos cinco anos? A resposta raramente cabe num press release, mas costuma caber num contrato, numa métrica e num mapa.

No fim, a estratégia de Natureza é um teste de maturidade. Não se mede pela quantidade de iniciativas, mas pela qualidade das renúncias. É a arte de ver o todo e escolher a parte. Como grande Mestre Michelangelo diria, é olhar para o bloco de mármore e tirar de lá o que está a mais, assim nasce a escultura. Deixar que a visão 360º encontre um gesto cirúrgico. Fazer menos coisas, de forma mais séria. E aceitar uma disciplina incómoda: quando nos apetecer adicionar mais uma iniciativa simpática, parar, subir, observar, e decidir como um falcão.

 

 

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade