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Eletrificação tem de acelerar quase quatro vezes para atingir meta de 35% até 2035
De acordo com um novo relatório do Climate Action Tracker, as políticas atualmente em vigor apenas permitiriam atingir uma quota de 28% de eletrificação até 2035%.
02 Nov 2026 - 07:00
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A eletricidade deverá representar 35% do consumo final global de energia até 2035, mas o ritmo atual de eletrificação parece estar longe de acompanhar essa ambição. Para atingir a meta promovida pelas presidências da COP31, a eletrificação terá de acelerar quase quatro vezes, alerta um novo relatório do Climate Action Tracker (CAT), divulgado nesta segunda-feira, que defende objetivos específicos para cada país e setor.
A proposta “35 by 35” pretende aumentar a percentagem do consumo final de energia assegurada pela eletricidade dos cerca de 24% registados em 2023 para 35% em 2035. Contudo, de acordo com o relatório, as políticas atualmente em vigor apenas permitiriam atingir uma quota de 28% nesse ano.
O documento sublinha que a eletrificação constitui uma das principais ferramentas para reduzir rapidamente as emissões de gases com efeito de estufa, através da substituição dos combustíveis fósseis nos transportes, edifícios e indústria por eletricidade de origem renovável.
Esta transformação ganha particular reelavância perante a impossibilidade de evitar a que os países ultrapassem o limite de 1,5 °C de aquecimento global, depois de “décadas de ação climática insuficiente”. Segundo o CAT, alcançar o objetivo do Acordo de Paris implicaria limitar a dimensão e a duração desta ultrapassagem, atingir emissões líquidas nulas de gases com efeito de estufa na segunda metade do século e fazer o aquecimento global regressar a níveis significativamente inferiores a 1,5 °C até 2100.
O relatório defende, contudo, que os 35% devem ser encarados como um patamar mínimo de ambição, e não como um limite máximo. As trajetórias compatíveis com o Acordo de Paris apontam para uma quota de eletrificação entre 34% e 41% em 2035, que deverá aumentar para valores entre 54% e 68% até 2050.

Partilha de Eletricidade até 2035 | Fonte: CAT
“A meta 35 até 2035 é fundamental para fazer avançar a ação climática, mas deve integrar um conjunto de medidas complementares que inclua também o aumento da capacidade de produção de energias renováveis, a melhoria da eficiência energética e a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis”, afirma Samuel Guéret, analista de políticas climáticas e energia da Climate Analytics, organização parceira do CAT.
“A meta não é o ponto de chegada, mas um marco importante num percurso de eletrificação mais longo e profundo”, acrescenta.
Nesse sentido, alerta que a meta deve ser articulada com os objetivos de energias renováveis e eficiência energética acordados na COP28.
“Isoladamente, os países poderiam cumprir a meta simplesmente acrescentando mais consumo de eletricidade ao sistema, por exemplo através de centros de dados, ou mantendo e até aumentando a utilização de combustíveis fósseis na produção de eletricidade”, explica o analista de políticas climáticas e energia da Climate Analytics.
Metas globais exigem mais investimento nas redes elétricas
O objetivo de 35% até 2035 foi adotado pela presidência turca da COP31 e pela presidência das negociações, assegurada pela Austrália, para complementar os compromissos assumidos na COP28: triplicar a capacidade de produção de energias renováveis e duplicar o ritmo anual de melhoria da eficiência energética, ambos até 2030.
Enquanto o aumento das energias renováveis permite substituir os combustíveis fósseis na produção de eletricidade, a eletrificação reduz a utilização desses combustíveis nos restantes setores da economia. Por sua vez, a eficiência energética diminui a quantidade de eletricidade necessária.
Para o CAT, à medida que a política climática passa da definição de metas para a sua concretização, é necessário dispor de indicadores que permitam avaliar se as medidas previstas e executadas são suficientes. Esta necessidade é particularmente relevante na eletrificação, uma vez que as definições, os indicadores e os pontos de referência continuam a variar entre países e setores.
Assim, o relatório recomenda a criação de um quadro de avaliação com vários níveis, que seja capaz de transformar uma meta geral para toda a economia em objetivos específicos que possam ser concretizados através de políticas públicas em cada país.
A proposta inclui indicadores de referência para a economia no seu conjunto, que estabeleçam a orientação geral e a ligação aos objetivos climáticos globais e a indicadores setoriais, que identifiquem as necessidades de eletrificação nos transportes, edifícios e indústria. Além disso, promovem a definição de indicadores de implementação tecnológica, que traduzam as metas em requisitos concretos e de indicadores das condições necessárias para relacionar a eletrificação com a descarbonização do sistema elétrico.
“A atual crise climática coincidiu, este ano, com mais uma crise no abastecimento de combustíveis fósseis, impulsionando o interesse na eletrificação, não apenas como uma potencial solução para as alterações climáticas, mas também como forma de reforçar a segurança energética”, afirma Pablo Blasco Ladrero, analista de energia do NewClimate Institute.
Para o analista, “indicadores de referência eficazes, estruturados num quadro de vários níveis, ajudam a transformar as metas de eletrificação em medidas concretas para cada setor”, permitindo alinhar a ação com os objetivos climáticos e, simultaneamente, obter benefícios para a segurança energética.
A concretização desta transformação depende também da capacidade das infraestruturas elétricas para acompanhar o aumento da procura. O relatório considera que as redes de transporte e distribuição, as interligações, o armazenamento, a gestão da procura e a flexibilidade operacional têm de ser reforçados antes ou, pelo menos, em paralelo com o crescimento do consumo de eletricidade.
Caso contrário, o aumento da procura poderá prolongar o funcionamento das centrais a carvão e a gás existentes ou incentivar a construção de novas instalações, aumentando as emissões e contribuindo para um aquecimento global mais elevado e prolongado.
O documento defende ainda que a adoção de novas tecnologias deve ser acompanhada por medidas como o isolamento dos edifícios, um planeamento urbano mais compacto, o reforço dos transportes públicos e uma maior eficiência na utilização de materiais.
Por outro lado, o CAT considera que a meta global não deve ser aplicada de forma uniforme a todos os setores e países, uma vez que nos transportes, edifícios e indústria, as diferenças nas tecnologias disponíveis e os níveis de eletrificação já alcançados exigem abordagens distintas.
O relatório salienta, por fim, que o acesso à eletricidade e a sua acessibilidade económica são essenciais para garantir uma transição justa. Apesar de os custos das tecnologias ao longo da sua vida útil poderem ser inferiores, os investimentos iniciais continuam a representar uma barreira para os consumidores.
Neste sentido, fatores como o financiamento, a proteção dos consumidores, as políticas sociais, o planeamento da força de trabalho e as salvaguardas nas cadeias de abastecimento de minerais críticos são apontados como determinantes para definir “quem beneficia da transição e quem suporta os respetivos custos”.
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