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GEOTA alerta que plano de expansão das redes de gás “contraria a transição energética”

A Consulta Pública relativa aos Planos de Desenvolvimento da Redes de Distribuição de Gás terminou no dia 3 de agosto. O GEOTA considera que expandir uma infraestrutura cuja utilização tende a diminuir “aumenta o risco de ativos encalhados".

04 Ago 2026 - 13:38

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Foto: Magnific

Foto: Magnific

Os planos de desenvolvimento e investimento nas redes de distribuição de gás para o período de 2027 a 2031 “contrariam a trajetória de eletrificação e descarbonização” assumida por Portugal e pela União Europeia, alerta o GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente. 

De acordo com o grupo de investigação, os planos dos operadores preveem cerca de 113 mil novas ligações, pelo menos 1 150 km de nova rede e aproximadamente 42 mil ramais. A maioria destina-se aos segmentos doméstico e de pequeno consumo, enquanto a indústria representa uma parcela reduzida. Para o GEOTA, esta opção “prolonga a utilização de gás em edifícios onde já existem alternativas elétricas mais eficientes”, como, por exemplo, as bombas de calor.

A Consulta Pública da ERSE relativa aos Planos de Desenvolvimento e Investimento das Redes de Distribuição de Gás (PDIRD-G 2026) terminou nesta segunda-feira, dia 3 de agosto.

“Não é coerente investir em mais de cem mil novas ligações de gás quando a política energética europeia aponta para uma meta de 46% de eletrificação do consumo final até 2040 e quando o próprio Governo português aposta na eletrificação das habitações. Esta expansão prende novos consumidores a uma infraestrutura fóssil durante décadas e cria o risco de estes investimentos perderem utilidade muito antes do fim da sua vida económica”, afirma Miguel Macias Sequeira, vice-presidente do GEOTA e investigador em energia e clima no CENSE NOVA-FCT.

O GEOTA considera ainda que expandir uma infraestrutura cuja utilização tenderá a diminuir “aumenta o risco de ativos encalhados e de uma espiral tarifária”, em que custos fixos cada vez mais elevados são repartidos por um número cada vez menor de consumidores.

Além disso, a estratégia proposta agrava também a vulnerabilidade energética de Portugal, que continua a importar todo o gás natural que consome, segundo a organização. A crise energética desencadeada pela invasão da Ucrânia e as recentes perturbações nos mercados internacionais demonstram os riscos económicos associados à dependência de combustíveis fósseis importados. A Comissão Europeia estima que a eletrificação poderá reduzir as importações europeias de gás em mais de 70% até 2040, sublinha o GEOTA.

Ainda que o GEOTA reconheça o potencial do biometano para valorizar resíduos, reduzir emissões e promover a economia circular, relembra que as estimativas oficiais apontam para uma produção equivalente a apenas cerca de 9,1% do consumo nacional de gás previsto para 2030, o que “não justifica a expansão generalizada das redes”. 

Para o grupo de estudo, o biometano e o hidrogénio renovável deverão ser prioritariamente direcionados para os “setores onde a eletrificação é mais difícil”.

“Portugal precisa de começar a decidir onde as redes de gás continuarão a ser necessárias e onde deverão ser desativadas de forma gradual e planeada. Sem essa estratégia, os últimos consumidores ligados, frequentemente os mais vulneráveis, poderão acabar por suportar tarifas desproporcionadas para manter uma infraestrutura cada vez menos utilizada”, acrescenta Miguel Macias Sequeira.

Perante este cenário, o GEOTA defende a elaboração de um plano nacional, “territorialmente diferenciado e socialmente justo” para a manutenção e desativação progressiva das redes de gás. Este plano deverá identificar as infraestruturas estratégicas a preservar, definir prioridades para a transição energética e assegurar transparência, proteção dos consumidores vulneráveis e participação pública.

Simultaneamente, o GEOTA solicita à ERSE que emita parecer desfavorável às propostas na sua configuração atual e pede ao Governo que substitua a “expansão cega” das redes de gás por uma “estratégia nacional coerente com os objetivos de descarbonização”, reforçando o investimento na eficiência energética, na geração descentralizada de energia solar e nas comunidades de energia.

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