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IA poderá consumir eletricidade equivalente à de 650 milhões de pessoas em 2030

Nações Unidas alertam que os centros de dados poderão consumir 945 TWh de eletricidade por ano até ao final da década. 80% da utilização é quotidiana. Impactos globais diferem no planeta.

07 Jun 2026 - 10:19

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Foto: Magnific

Foto: Magnific

Um novo estudo da Universidade das Nações Unidas alerta que a expansão da Inteligência Artificial (IA) poderá ter um impacto ambiental muito superior ao estimado, com os centros de dados a poderem consumir até 945 TWh de eletricidade por ano até 2030, mais do que o consumo anual de eletricidade de 650 milhões de pessoas.

No entanto, isto é apenas a ponta do icebergue. Para além da pegada de carbono, cada unidade de eletricidade utilizada pelos centros de dados acarreta também uma pegada hídrica associada ao arrefecimento e à produção de energia, bem como uma pegada territorial relacionada com a geração de energia e as cadeias de abastecimento.

O consumo de água relacionado com a IA, por exemplo, poderá equivaler às necessidades domésticas básicas anuais de 1,3 mil milhões de pessoas até ao final da década. Já a pegada territorial poderá ultrapassar os 14.500 quilómetros quadrados, aproximadamente o dobro da área metropolitana de Jacarta, capital da Indonésia.

O relatório destaca também que existe uma lacuna na forma como o impacto ambiental da IA é medido. Nomeadamente, as emissões de gases com efeito de estufa (GEE), particularmente as associadas ao treino de modelos de grande dimensão, tendem a receber maior atenção, mas esta abordagem ignora outros custos ambientais relevantes.

Soluções consideradas verdes num determinado aspeto podem agravar a pressão noutros, especialmente em regiões que já enfrentam escassez de recursos. Por exemplo, a transição para determinadas fontes de energia renovável pode reduzir as emissões de carbono, mas aumentar significativamente o consumo de água e a ocupação de solo, sublinha a análise.

80% é utilização diária

O debate público tem-se concentrado sobretudo na energia necessária para treinar modelos avançados de IA, mas o estudo conclui que a utilização quotidiana representa cerca de 80% a 90% da procura total de energia.

A dimensão do fenómeno é impressionante: estima-se que um serviço de IA amplamente utilizado processe cerca de 2,5 mil milhões de pedidos (prompts) por dia, consumindo centenas de gigawatts-hora de eletricidade por ano.

O consumo energético também varia significativamente consoante a tarefa. Gerar uma única imagem com IA pode exigir mais de mil vezes a energia necessária para uma simples classificação de texto, enquanto a geração de vídeo requer ainda mais recursos.

O estudo refere, no entanto, os impactos ambientais da infraestrutura de IA não estão distribuídos de forma uniforme. Embora os benefícios da tecnologia sejam globais, os seus custos tendem a concentrar-se em regiões específicas.

Em alguns países, os centros de dados já representam uma parcela significativa do consumo nacional de eletricidade, exercendo pressão sobre os sistemas energéticos. Noutros, a expansão destas instalações está a consumir grandes quantidades de água, por vezes em contextos de seca.

Ao mesmo tempo, o relatório alerta para um crescente desafio relacionado com os resíduos eletrónicos. Prevê-se que a infraestrutura de IA gere até 2,5 milhões de toneladas de lixo eletrónico por ano até 2030. Grande parte deste encargo deverá recair sobre países de baixo rendimento, que dispõem de capacidade limitada para uma eliminação segura destes resíduos.

A produção dos minerais críticos necessários ao hardware de IA também suscita preocupações quanto à degradação ambiental e às desigualdades sociais nas regiões de extração.

Fossos digital e ambiental aumentam

A expansão da infraestrutura de IA está igualmente a criar novas desigualdades no acesso e na influência tecnológica. Segundo o relatório, mais de 90% da capacidade computacional especializada em IA está concentrada em apenas dois países: os Estados Unidos e a China. Em contrapartida, mais de 150 países não dispõem de infraestrutura nacional significativa nesta área.

“Este desequilíbrio não só limita oportunidades económicas, como também levanta questões de justiça ambiental, já que alguns países suportam os custos ambientais sem beneficiarem proporcionalmente do crescimento impulsionado pela IA”, sublinha o relatório.

Apesar das conclusões preocupantes, os investigadores sublinham que o relatório não constitui um argumento contra a IA em si. Pelo contrário, apela a uma ação urgente para garantir que esta tecnologia evolui dentro dos limites ecológicos do planeta.

O estudo propõe um quadro para um ecossistema de IA responsável, assente em princípios como transparência, eficiência desde a conceção, equidade, responsabilidade ao longo do ciclo de vida, cooperação internacional e utilização sustentável.

Os utilizadores também têm um papel a desempenhar, optando, sempre que possível, por aplicações com menor impacto ambiental.

 

 

 

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