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Infraestrutura insuficiente e investimento elevado travam descarbonização da logística em Portugal
A descarbonização da última milha na entrega de encomendas continua a enfrentar desafios estruturais, tecnológicos e operacionais. Já a inteligência artificial e as entregas ‘out-of-home’ conttribuem para reduzir emissões e aumentar a eficiência.
20 Abr 2026 - 07:38
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A eletrificação das frotas automóveis empresariais na Europa poderá gerar poupanças acumuladas de 246 mil milhões de euros até 2030, segundo um estudo recente da EY e da Eurelectric. Mas, apesar do potencial económico e ambiental, apenas 6% das frotas das empresas são atualmente elétricas, revelando um atraso na transição energética deste setor.
Se particularizarmos na área da logística, nomeadamente na entrega de encomendas, os desafios vão mais além: é preciso manter a eficiência num setor pressionado pelo aumento do comércio eletrónico enquanto se tenta reduzir substancialmente a pegada carbónica da “last mile”, a última milha percorrida pelos veículos para fazer chegar as encomendas aos consumidores.
Uma pesquisa realizada pela DPD Portugal estima que as entregas “last mile” em Portugal têm um impacto entre 1,5 a 2,5 MtCO₂e/ano, o que representa entre 2,5% a 4,5% das emissões nacionais totais, correspondendo a 8% a 14% das emissões do setor dos transportes.
Nesta jornada de descarbonização da logística, o país enfrenta alguns entraves particulares que condicionam a velocidade dessa transição. Segundo Rui Nobre, diretor-geral adjunto de Operações da DPD Portugal, “um dos principais obstáculos prende-se com a maturidade das infraestruturas de apoio à eletrificação, particularmente no segmento do transporte pesado, onde a tecnologia e a rede de carregamento ainda não estão totalmente desenvolvidas”, refere ao Jornal PT Green. A este fator acresce o elevado investimento necessário para a renovação das frotas e a adaptação das operações, destaca o responsável.
Ainda assim, “Portugal tem registado progressos importantes, nomeadamente na eletrificação das frotas urbanas e na adoção de soluções alternativas, como as entregas ‘out-of-home’, que contribuem para reduzir emissões e aumentar a eficiência”, assinala Rui Nobre.

Rui Nobre, diretor-geral adjunto de Operações da DPD Portugal
Quando comparado com países do centro e norte da Europa, o país apresenta atrasos sobretudo ao nível da infraestrutura. De acordo com dados do Índice de Carregamento de Veículos Elétricos da consultora alemã Roland Berge, no final de 2025, a proporção entre veículos elétricos e pontos de carregamento públicos continua a ser elevada (24 veículos por cada ponto de carregamento), quase o dobro da média europeia. Nesse inquérito, 49% dos inquiridos consideram que a infraestrutura pública de carregamento em Portugal é insuficiente, um valor superior à média europeia (43%).
O papel da IA e das entregas ‘out-of-home’
A descarbonização do setor das entregas depende, assim, de uma transformação conjunta levada a cabo pelas empresas, cidades e hábitos dos consumidores, alavancados pela pressão regulatória que emana de Bruxelas.
A eletrificação das frotas surge entre as principais inovações, mas não só: “O setor tem evoluído para uma abordagem mais abrangente, que vai além da substituição de veículos. A utilização de combustíveis alternativos, como o HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), surge como uma solução intermédia relevante para reduzir emissões em segmentos onde a eletrificação ainda não é viável”, explica o responsável.
Paralelamente, a digitalização tem vindo a assumir um papel central. A integração de sistemas inteligentes de gestão de frota, com recurso a dados em tempo real e inteligência artificial (IA), permite otimizar rotas, antecipar constrangimentos operacionais e reduzir quilómetros desnecessários, com impacto direto na eficiência energética.
Outro vetor importante de inovação está nos modelos de entrega. As soluções “out-of-home”, em que os clientes vão buscar as suas encomendas a cacifos estrategicamente colocados e pontos de recolha, estão a contribuir para transformar a lógica da distribuição. Desta forma, é possível consolidar entregas, reduzir o número de deslocações e, logo, ter impacto direto na redução de energia utilizada e emissões emitidas. “Este tipo de abordagem demonstra que a inovação no setor não é apenas tecnológica, mas também operacional e comportamental”, destaca Rui Nobre.
O responsável aponta como bons exemplos a Polónia e os países Bálticos, onde uma elevada taxa de compras online é acompanhada pela adoção dos consumidores de uma cultura de levantamento das encomendas em redes de proximidade, sobretudo ‘lockers’. “É a própria gestão das cidades que desenvolve estruturas capazes de comportar um elevado número de equipamentos num mesmo espaço, o que, também aqui, revela a enorme mudança de mindset”, sublinha.
No seu plano de descarbonização, a DPD Portugal, que pertence ao grupo global Geopost, prevê reduzir as suas emissões em 43% até 2030 e 90% até 2040, através da eletrificação da frota (com meta de 60% de veículos elétricos até 2027) e o uso de combustíveis alternativos como o HVO. A empresa aposta também na eficiência, através da otimização de rotas e tecnologias de monitorização, bem como na expansão de pontos de recolha. A nível tecnológico, destaca uma calculadora de carbono que permite aos clientes acompanhar, em tempo real, o impacto ambiental das suas encomendas para poderem tomar decisões mais informadas. A inovação em processos, como as etiquetas digitais, também tem contribuído para reduzir o consumo de recursos e aumentar a eficiência das operações, explica.
“Para o futuro, vamos continuar a reforçar o investimento em soluções tecnológicas e operacionais, nomeadamente através da implementação de plataformas de otimização de rotas com inteligência artificial e do desenvolvimento de projetos associados à eletrificação do transporte pesado, onde destaco a nossa ambição de introduzir camiões 100% elétricos em Portugal”, avança Rui Nobre.
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