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João Moreira Rato: “As empresas necessitam de fazer um grande esforço para garantir a fiabilidade dos dados”
Recolher e trabalhar dados com qualidade é uma das principais falhas que o presidente do IPCG encontra nas empresas em Portugal. Assim como reconhecer os riscos climáticos como efetivos riscos operacionais que afetam, entre outras questões, o acesso a capital.
15 Set 2026 - 06:35
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João Moreira Rato | Foto: Raquel Wise
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João Moreira Rato | Foto: Raquel Wise
A qualidade dos dados ESG (sigla para ambiental, social e governação), a integração dos riscos climáticos na estratégia empresarial e o impacto das alterações regulatórias no financiamento estarão em debate na Conferência Anual ESG do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG), que se realiza nesta terça-feira, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Em entrevista ao Jornal PT Green, o presidente do IPCG, João Moreira Rato, alerta que muitas empresas ainda não reconhecem os riscos climáticos como riscos materiais e defende que a recolha e o tratamento de dados exigem processos mais rigorosos.
Considera também que as médias empresas têm ainda um longo caminho a percorrer na melhoria da governance e na medição dos riscos climáticos, enquanto as pequenas empresas devem começar por formalizar processos de gestão e identificar os principais riscos para a sua atividade.
Os riscos climáticos, a qualidade da informação ESG e as exigências regulatórias têm cada vez maior impacto na competitividade. Os líderes empresariais em Portugal estão sensibilizados e a integrar, de facto, estes fatores nas decisões estratégicas ou ainda os remetem para o Departamento de Sustentabilidade, quando existe?
Seria injusto não reconhecer a atenção que muitas das nossas grandes empresas dedicam a desenhar estratégias sustentáveis, medir risco climático e em melhorar a governance. Neste caso, como se pode verificar pela evolução positiva que se tem observado nos resultados da monitorização do Código de Governo das Sociedades. Onde ainda existe muito trabalho por fazer nestas áreas é nas médias empresas. E é com esta preocupação que o IPCG tem vindo a trabalhar numa série de princípios que sejam operacionais para a melhoria da governance das médias empresas.
A missão do IPCG é precisamente difundir essas boas práticas de governance junto das empresas. Quais os maiores desafios e falhas que ainda se encontram nos conselhos de administração relativamente a estas matérias?
Onde se encontra algum défice, observado durante o processo de monitorização, é em matéria de nomeações de administradores, com algumas carências em termos da fundamentação das escolhas de administradores, incluindo perfil desejado, níveis de experiência e conhecimento procurados. A proporção de não executivos que cumprem requisitos de independência também tem espaço para melhorias.
A Conferência Anual ESG do Instituto, que tem lugar nesta terça-feira, é dedicada ao tema “Estratégia Empresarial, Qualidade de Dados e Financiamento”. Quais são hoje as principais fragilidades da informação produzida pelas empresas portuguesas e que impacto isto tem na sua competitividade e também do tecido empresarial?
As empresas necessitam de fazer um grande esforço para garantir a fiabilidade dos dados, porque isso implica desenhar processos de recolha, arquivamento e tratamento dos dados. E muitas vezes os dados históricos não passaram por um crivo tão exigente e por isso podem não estar disponíveis com a mesma qualidade. Além disso, alguns dos processos de recolha de dados passam por questionários a clientes que podem originar respostas pouco robustas se não forem verificáveis por terceiros. E outras fontes externas podem ainda não ser muito fiáveis. Para as fontes externas, ainda não existe uma grande colaboração na socialização da recolha de dados objetivos que possam beneficiar todas as empresas de um dado setor.
Então, que caminho devem seguir as empresas para produzir mais melhores dados? A IA terá aqui um papel relevante?
O IA não vai funcionar bem sem boas bases de dados. Vai ser preciso ter cuidados estatísticos na recolha de dados para que estes não venham distorcidos pela própria recolha. Ainda existe muito espaço para melhorar na própria recolha de dados. E depois é necessário tempo para que as séries históricas sejam suficientemente longas.
O financiamento é uma das questões que está cada vez mais condicionada pela avaliação dos riscos climáticos e por essa qualidade da informação empresarial. As empresas portuguesas estão a perceber que uma governance sólida e uma estratégia de sustentabilidade podem influenciar diretamente o seu acesso a capital e as condições de financiamento?
Em minha opinião, isso ainda não é claro para boa parte das empresas e, nesse sentido, estes avanços e recuos regulatórios a nível europeu não têm ajudado muito. À medida que vamos vivendo impactos mais extremos provocados por instabilidade climática, os financiadores e as empresas vão entendendo que boa parte dos riscos são materiais e não surgem apenas de imposições regulatórias.
Mas a regulação tem vindo a ser simplificada com a redução das obrigações de reporte para, de certa forma, aliviar os encargos das empresas. Essa simplificação não poderá comprometer a qualidade da informação ESG ou a capacidade do mercado para avaliar riscos e oportunidades?
Se a qualidade dos dados for prioritária para a gestão de financiadores e clientes, as empresas não têm outra hipótese a não ser dar uma resposta à altura dos pedidos, sob risco de perder clientes e financiadores. Se estes riscos forem relevantes para compradores e financiadores no mercado, as empresas não vão ter outra hipótese a não ser ajustar-se.
Que mudanças concretas gostaria de ver a breve prazo nas empresas para que a sustentabilidade deixe de ser tratada como uma obrigação de reporte e passe a estar integrada na gestão do risco?
Na última revisão do Código, foi dada relevância à consideração de fatores de sustentabilidade na decisão estratégica e à consideração e mensuração de riscos climáticos. Um aumento da seriedade na consideração de todos os stakeholders no momento de desenho de uma estratégia e da capacidade para medir os riscos climáticos são essenciais para que o nosso tecido económico aumente de maturidade.
Portugal é um país composto maioritariamente por micro e PME, com poucos recursos humanos e financeiros. Que conselho daria a estas entidades para iniciarem e abraçarem este caminho?
Aconselharia a que comecem por dar passos simples no sentido da formalização de processos de gestão. Por exemplo, para as pequenas empresas, passar a escrever e arquivar as atas das reuniões de direção, ou identificar uma lista do que são os maiores riscos para a performance da empresa e montar mecanismos para os medir e seguir essas medidas com regularidade.
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