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Neutralidade carbónica começa no solo, não nos relatórios

A neutralidade carbónica não se atinge apenas equilibrando colunas de emissões e compensações. Atinge-se quando se repara o ciclo do carbono onde ele foi quebrado. Por Nuno Mamede Santos, fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo

09 Mar 2026 - 07:43

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Nuno Mamede, fundador e responsável técnico da Terracrua Design

Nuno Mamede, fundador e responsável técnico da Terracrua Design

A neutralidade carbónica tornou-se um objetivo político omnipresente. Está em planos nacionais, relatórios empresariais, estratégias municipais e compromissos internacionais. Fala-se de metas, percentagens, compensações e mercados de carbono. Mas, no meio desta avalanche de números, perde-se frequentemente o essencial: o carbono relevante não está nos relatórios. Está no solo.

O ciclo do carbono é um processo biogeoquímico simples na sua base e profundamente complexo nas suas interações. O carbono atmosférico é capturado pelas plantas através da fotossíntese, transformado em biomassa e, idealmente, incorporado no solo sob a forma de matéria orgânica estável. Quando este ciclo funciona, temos solos vivos, férteis, capazes de reter água, sustentar biodiversidade e produzir alimento. Quando falha, temos erosão, desertificação, perda de produtividade e dependência crescente de inputs externos.

Durante décadas, a agricultura industrial rompeu este ciclo. Mobilização intensiva do solo, monoculturas anuais, ausência de cobertura vegetal, excesso de fertilizantes solúveis e pesticidas. O resultado é conhecido: solos com baixos teores de matéria orgânica, frágeis à seca e à chuva intensa, e emissores líquidos de carbono. Nestes sistemas, o solo deixa de ser um sumidouro e passa a ser uma fonte de emissões.

A agricultura regenerativa propõe exatamente o inverso. Não como conceito abstrato, mas como conjunto de práticas testadas no terreno em diferentes contextos produtivos. O seu ponto de partida é claro: regenerar o solo é regenerar o ciclo do carbono.

Em sistemas florestais e silvo-pastoris o sequestro de carbono ocorre em múltiplos níveis. As árvores capturam carbono na sua biomassa aérea e radicular, mas o ganho mais duradouro está no solo. Sistemas florestais bem desenhados promovem deposição contínua de folhas, ramos finos e exsudados radiculares, alimentando a biologia do solo. Fungos micorrízicos, bactérias e micro-fauna transformam esse carbono em matéria orgânica estável, muitas vezes com tempos de residência de décadas ou séculos.

Na horticultura regenerativa, frequentemente vista como incompatível com sequestro de carbono, o potencial é significativo quando o solo deixa de ser tratado como substrato inerte. Práticas como não mobilização ou mobilização mínima, cobertura permanente com mulch orgânico, rotações diversificadas e uso de adubos verdes aumentam rapidamente os teores de matéria orgânica. Cada incremento percentual representa toneladas de carbono fixado por hectare, com benefícios diretos na infiltração de água e na resiliência produtiva.

Na fruticultura, o erro histórico foi isolar a árvore do ecossistema. Pomares convencionais, com solo nu e compactado, desperdiçam grande parte do potencial de sequestro. Sistemas regenerativos introduzem cobertos vegetais funcionais, diversidade de espécies herbáceas e arbustivas, e gestão cuidadosa da matéria orgânica. O resultado é um sistema mais estável, menos dependente de fertilização externa e com maior capacidade de capturar carbono ao longo do tempo.

Na agropecuária, o debate sobre emissões tende a ser simplificado em excesso. Animais não são, por definição, um problema climático. Sistemas pecuários mal geridos são. Em pastagens degradadas, a emissão líquida é real. Em sistemas de pastoreio planeado, com tempos de ocupação curtos e períodos adequados de recuperação, o solo aumenta o seu teor de carbono de forma consistente. A interacção entre plantas perenes, raízes profundas e deposição de matéria orgânica cria condições para um sequestro efectivo, frequentemente superior às emissões associadas aos próprios animais.

É nos sistemas agroflorestais e policulturais que esta lógica se torna mais evidente. A combinação de árvores, arbustos, culturas anuais, pastagens e animais cria sistemas que capturam carbono em todas as camadas: aérea, radicular e edáfica. Mais importante ainda, cria sistemas que mantêm esse carbono no território, reduzindo perdas por erosão, escorrência superficial e volatilização.

Tudo isto é mensurável. Aumento de matéria orgânica do solo, melhoria da estrutura, maior infiltração de água, redução de necessidades de fertilização e rega. São indicadores concretos, observáveis no terreno, não abstrações contabilísticas. No entanto, continuam a receber menos atenção do que mecanismos de compensação baseados em créditos ou offsets, muitas vezes desligados da realidade ecológica.

Relatórios não regeneram ecossistemas. Mercados de carbono não restauram solos degradados. Podem ter o seu lugar como ferramentas auxiliares, mas nunca como substitutos da ação no território. A neutralidade carbónica não se atinge apenas equilibrando colunas de emissões e compensações. Atinge-se quando se repara o ciclo do carbono onde ele foi quebrado.

Em Portugal, país de solos pobres e clima cada vez mais irregular, esta discussão é particularmente urgente. Investir em práticas agrícolas que aumentem o carbono no solo é investir em segurança alimentar, gestão da água, redução do risco de incêndio e resiliência económica das explorações. É uma estratégia climática com co-benefícios reais, imediatos e duradouros.

A pergunta que importa não é quantas toneladas de carbono conseguimos declarar num relatório. É quantos centímetros de solo fértil conseguimos reconstruir. A neutralidade carbónica começa aí. No solo. Tudo o resto são contas por acertar.

Bio: Nuno Mamede Santos é o fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de vinte anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.

 

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