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O chão é de lava! Ou os problemas de uma economia saltitante

A natureza deixou de ser um “tema ambiental” para revelar aquilo que sempre foi: infraestrutura económica. Água, solos e biodiversidade são condições de funcionamento de qualquer sociedade que pretenda durar e progredir. Por Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI – Natural Business Intelligence

27 Jan 2026 - 14:00

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Nuno Gaspar de Oliveira CEO da NBI Natural Business Intelligence

Nuno Gaspar de Oliveira CEO da NBI Natural Business Intelligence

 Há um jogo de infância que, quase sem darmos por isso, se tornou numa metáfora dolorosamente adequada para os nossos dias. O chão é lava ensinava-nos a mover-nos sem tocar no real, saltando de superfície em superfície, acreditando que a agilidade bastava para nos manter a salvo. Em 2026, a política, a economia e até a cultura parecem ter interiorizado esta regra com zelo excessivo. Saltamos entre crises, entre guerras, entre promessas tecnológicas e narrativas redentoras, enquanto o chão (como quem diz, o território, os sistemas ecológicos e climáticos e os limites biofísicos) permanece convenientemente fora de contacto.

Talvez seja por isso que a Economia Natural surge menos como uma proposta e mais como um incómodo, talvez porque insiste em algo que durante muito tempo foi tratado como coisa de somenos, que é o facto de que toda a economia acontece dentro de sistemas naturais. Gráficos, dashboards e discursos sobre crescimento são meras reduções ao (quase)absurdo de uma realidade complexa, multidimensional e que não se esgota em bullets num slide. As leis da física, química, matemática e ecologia pouco – ou nada – querem saber da nossa interpretação, são implacavelmente indiferentes aos nossos desejos, mas altamente sensíveis às nossas tentativas de mudar o sistema. É como dizer que quem se atira de um 10º andar a pensar que vai flutuar como uma pena é porque não percebeu a gravidade da situação. Mais rocambolesco mesmo só acreditar que o crescimento infinito do PIB significa progresso e bem-estar igualmente crescentes.

Claramente por culpa de Christopher Nolan, penso muitas vezes no significado da Odisseia, onde Homero descreve uma viagem que não é apenas geográfica, mas cognitiva e transcendente, através de um multiverso que se altera á medida que é explorado por Ulisses. Este parece saber onde quer chegar, mas perde-se nas ilhas onde o tempo parece suspenso, onde as consequências não se impõem de imediato e onde as barreiras metafísicas se diluem numa fantasia onírica. Soa familiar? Pois, parece-me que a nossa economia do crescimento vive hoje numa versão muito sofisticada dessas ilhas e criaturas. Passando por Eéia, onde Circe nos engorda e transforma com inovação, mercado, transição e tecnologia verde, até Ogígia, onde Calypso nos seduz com ESG, sustentabilidade e prazeres regenerativos para toda a eternidade. Seriam paragens fabulosas, se não fossem tão incompletas e perigosas quando as tomamos por realidade.

A Economia Natural entra neste debate de forma quase lateral, como uma alteração subtil do ponto de vista a partir do qual passamos a observar a complexidade discernível. À medida que o olhar se ajusta, aquilo que antes parecia pano de fundo, como a biodiversidade, a água ou o clima, começam a ocupar o primeiro plano. Não será por virtude ideológica – algo demasiado tóxico por estes dias -, mas porque se torna cada vez mais difícil ignorar que é nesses sistemas vivos que se apoiam a produção, o investimento e a própria ideia de progresso. A Economia Natural limita-se a levar essa evidência até às suas últimas consequências, recusando a abstração que durante décadas permitiu tratar o território como um detalhe e a natureza como uma nota de rodapé.

Yuval Harari escreveu que as sociedades entram em crise quando continuam a usar histórias/narrativas que já não explicam o mundo que habitam. A narrativa autista de uma economia que flutua acima da base biofísica que a sustenta é uma armadilha arriscada e potencialmente fatal. Durante algum tempo funcionou, como funcionam as ilusões quando o custo ainda não se materializou. Em 2026, o custo está cada vez mais presente nos mercados, nos seguros, nas cadeias de abastecimento e na geopolítica. Mas e agora? O que é que é preciso fazer, deixar de fazer e o que temos mesmo que questionar?

O que faria sentido fazer (se não nos desse tanto trabalho)

Aceitar, antes de mais, que a natureza deixou de ser um “tema ambiental” para revelar aquilo que sempre foi: infraestrutura económica. Água, solos e biodiversidade não são expressões de ativismo nem variações poéticas sobre os 50 tons de verde; são condições de funcionamento de qualquer sociedade que pretenda durar e progredir. Ignorá-las é pouco mais que uma forma elegante de otimismo contabilístico. Mas lá porque não sabemos o valor não quer dizer que não tenhamos que pagar um preço.

Alinhar aquilo que insistimos em tratar como universos paralelos: regulação, capital(is) e território(s). A Europa tem feito um trabalho notável de produção de referenciais e métricas de excelência, relatórios sofisticados, taxonomias minuciosas, mas tem cedido demasiado terreno no que á ação e implementação diz respeito. Ficarmos pelo ‘medir’ não evita ondas de calor e incêndios devastadores, não evita cheias repentinas nem cria novas empresas e empregos com capacidade para gerar alternativas económica e socialmente viáveis. Dados sem decisão resulta em ansiedade bem formatada.

Reconhecer, finalmente, que investir em natureza não é filantropia tardia, mas gestão básica de risco, tanto o conhecido como o desconhecido, os famosos ‘unknown unknowns’ de Colin Powell. Num mundo cada vez menos previsível, a estabilidade ecológica começa a funcionar como um ativo defensivo. E, como todos os ativos escassos, tende a ser reavaliado, sobretudo por quem percebe que nem tudo é segurável ou financiável.

O que continuamos a fazer (porque é confortável)

Confundir Economia Natural com performance: Seja pela glorificação dos ODS ou ESG (de enorme utilidade no contexto certo) com palavras certas, quadros dinâmicos e coloridos e impacto difuso. Em 2025 ouvi várias empresas a explicarem que agora a prioridade era o reporting, que não era altura de investir em projetos ou análises. Espero que tenha corrido bem.

Apostar em mecanismos financeiros públicos que por vezes não consideram adequadamente as singularidades dos território e do funcionamento dos ecossistemas e das comunidades locais, através de concursos públicos com timings precipitados (os avisos do Fundo ambiental para a biodiversidade e conservação da Natureza são um exemplo cabal, ao corresponderem a projetos que tem que ficar executados em dezembro do ano correspondente) ou excessivamente formatados (como o caso da sagro-ambientais para comedouros de perdizes e javalis), frequentemente alavancados por promessas futuras (vamos ver o que nos traz o plano de restauro), com impactos difíceis de verificar (onde estão os indicadores de impacto?). Precisamos desesperadamente que as políticas públicas compreendam (muito) melhor o papel dos agentes municipais e privados na geração de bens e serviços públicos. Mais falarei disto noutro artigo.

E persistir na ideia de que biodiversidade é um custo inevitável. Curiosamente, o custo aparece sempre depois, sob a forma de capital mais caro, seguros ausentes, infraestruturas frágeis e litigância crescente. Como lembrava Keynes, o mercado pode ignorar a realidade durante algum tempo, mas cobra juros elevados quando decide regressar a ela.

As perguntas que evitamos (porque estragam o jogo)

Porque continuamos a tratar a natureza como um simpático ‘nice to have’ e dias de vacas remediadas, quando esta condiciona em tantos aspetos e dimensões a política económica, o risco financeiro e a coesão e inovação territorial?

Porque não dar mais capacidade de decisão e autonomia de gestão aos municípios e comunidades intermunicipais, onde os problemas acontecem de facto, em vez de esperar por soluções centralizadas, seja na república ou nas autoridades regionais, porque não aumentamos consideravelmente os limites de financiamento a serviços que contribuam significativamente para aumentar e valorizar o capital natural das comunidades locais e regionais?

E a pergunta menos popular de todas: crescer o quê, onde e até quando? A Economia Natural não afirma que crescer é mau, não tem qualquer tipo de aversão a lucro e desenvolvimento quando estes resultam de atividades e investimentos que também valorizam a sociedade, pessoas e ambiente em vez de crescerem em cima da degradação de bens e serviços comuns. Nada pode continuar a crescer ao mesmo tempo, no mesmo sítio e para sempre.

Aqui convém recordar Elinor Ostrom, que mostrou que os recursos comuns não colapsam por azar, mas por falhas de governação. A natureza, recursos naturais, sistema climático e serviços dos ecossistemas não são exceção. Se já temos alguma tecnologia para uma transição regenerativa , falta ainda muita capacidade de decisão e coragem política para a exercer. Como escreveu José Saramago, há momentos em que compreender já não basta; é preciso escolher. Em 2026, esse momento chegou, e continua a ser habilmente adiado. A Economia Natural não pede heroísmo, apenas maturidade. Não exige que salvemos o planeta, apenas que paremos de fingir que o chão é lava. Porque não é, e cair dói sempre mais do que pousar os pés a tempo.

 

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