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O lixo que não é lixo
Em algumas cidades, a compostagem comunitária está a tornar-se mais do que gestão de resíduos. Está a tornar-se espaço social. Por Nuno Mamede, fundador e responsável técnico da Terracrua Design
08 Jun 2026 - 05:49
9 min leitura
Nuno Mamede, fundador e responsável técnico da Terracrua Design
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Nuno Mamede, fundador e responsável técnico da Terracrua Design
Há um mapa de Lisboa de 1812 que mostra qualquer coisa que já não existe: um anel de hortas à volta da cidade. Não eram jardins decorativos. Eram a infraestrutura alimentar da capital. Alface, couve, nabo, cebola; tudo crescia ali, a uma hora de carroça do mercado. E entre as hortas, cavalariças. Centenas delas. Os cavalos que puxavam Lisboa: carruagens, mercadorias, gente; e produziam estrume. O estrume ia para as hortas. As hortas alimentavam a cidade. A cidade alimentava os cavalos. Ciclo fechado.
Isto não era bucolismo. Era lógica. Os nutrientes que saíam do solo em forma de alimento voltavam ao solo em forma de composto. A cidade era um nó num sistema maior; recebia e devolvia. Os restos de comida das casas, as fezes dos animais, as palhas e aparas; tudo regressava à terra que rodeava a cidade. Não havia «lixo orgânico». Havia matéria em trânsito.
Esse mundo acabou. E criámos um problema que ainda não sabemos resolver.
Hoje, em Portugal, cerca de 40% do lixo doméstico é matéria orgânica. Restos de comida, cascas, borras de café, folhas, resíduos de jardim. Quase metade do que pomos no contentor é material que podia voltar ao solo. Em vez disso, vai para o aterro. Ou para incineração.
No aterro, a matéria orgânica decompõe-se sem oxigénio. Produz metano; um gás com efeito de estufa 80 vezes mais potente que o CO2 nos primeiros vinte anos. Produz lixiviados; líquidos tóxicos que contaminam solos e aquíferos se não forem contidos. Produz mau cheiro, pragas, conflitos com as comunidades vizinhas. E ocupa espaço cada vez mais escasso, cada vez mais contestado.
Na incineração, a matéria orgânica arde mal. Tem demasiada água. Baixa o rendimento energético da central. E os nutrientes; o azoto, o fósforo, o potássio, os microelementos; perdem-se para sempre. Viram cinza. Viram fumo. Viram nada.
Enquanto isso, a agricultura portuguesa importa centenas de milhares de toneladas de fertilizantes sintéticos por ano. Azoto fabricado com gás natural. Fósforo extraído de minas em Marrocos. Potássio que vem da Rússia ou do Canadá. Gastamos energia fóssil a fabricar nutrientes que depois enterramos ou queimamos nas cidades. O absurdo é tão grande que deixou de ser visível.
A rutura aconteceu em menos de um século.
Primeiro vieram os automóveis. Os cavalos desapareceram das cidades; e com eles o estrume. As cavalariças fecharam. O cinturão de hortas perdeu a sua fonte de fertilidade.
Depois veio a expansão urbana. As hortas foram engolidas por prédios. O que era periurbano tornou-se urbano. Lisboa, Porto, todas as cidades portuguesas cresceram sobre a sua própria cintura alimentar.
Depois veio a agricultura química. Os fertilizantes sintéticos baratos, concentrados, fáceis de aplicar, tornaram o estrume obsoleto. Porque haveria um agricultor de compostar durante meses se podia comprar um saco de adubo e resolver em minutos?
Depois vieram os supermercados e as cadeias de frio. A comida deixou de vir de perto. Passou a vir de longe; de Espanha, de Marrocos, do Brasil, da China. O vínculo entre cidade e campo envolvente dissolveu-se. A cidade tornou-se ponto terminal de consumo; já não devolvia nada.
E assim chegámos ao presente: cidades que importam alimentos de milhares de quilómetros e exportam os seus resíduos orgânicos para aterros nos arredores. Um sistema linear onde tudo entra e nada volta. Extrair, consumir, descartar. O oposto exato daquele mapa de 1812.
A compostagem doméstica é a resposta mais simples. Uma caixa no quintal ou na varanda. Cascas, restos, borras de café; em poucos meses, terra preta e fértil. Funciona. Milhares de famílias fazem-no. Algumas câmaras municipais distribuem compostores subsidiados.
Mas tem limites. Quem vive num apartamento sem varanda não pode compostar em casa. Quem tem varanda pequena também não. Quem viaja frequentemente não consegue manter o processo. Quem não tem jardim nem vasos não sabe o que fazer com o composto. A compostagem doméstica é solução para alguns; não é solução para cidades.
A compostagem comunitária muda a escala. Em vez de cada casa ter o seu compostor, um bairro partilha um ou vários pontos de compostagem. Os moradores trazem os seus resíduos orgânicos; voluntários ou funcionários gerem o processo; o composto resultante vai para hortas urbanas, jardins públicos, canteiros do bairro.
O modelo existe. Funciona em dezenas de cidades europeias. Em Portugal, há experiências em Lisboa, no Porto, em alguns municípios mais pequenos. Mas são iniciativas dispersas, subfinanciadas, dependentes de entusiasmo individual. Não há política nacional. Não há escala.
O que seria preciso para fechar o ciclo?
Primeiro: recolha seletiva de resíduos orgânicos em todo o país. Não apenas o contentor verde do vidro, o amarelo das embalagens, o azul do papel. Um contentor castanho; ou outra solução; para os orgânicos. Algumas câmaras já têm. A maioria não.
Segundo: infraestrutura de compostagem a sério. Não os aterros disfarçados de «centros de valorização». Compostagem aeróbia, controlada, que produz composto de qualidade. Pode ser centralizada a nível municipal; pode ser distribuída em bairros e freguesias. Provavelmente precisa de ser as duas coisas.
Terceiro: destino para o composto. Aqui está o nó que raramente se discute. Mesmo que produza-mos toneladas de composto; para onde vai? A agricultura convencional não quer saber; prefere o adubo sintético que conhece. Os jardins municipais consomem pouco. Quem fica com a matéria orgânica transformada?
A resposta passa por reconstruir a ligação entre cidade e campo. Hortas urbanas e periurbanas que usem composto local. Agricultores em transição para práticas regenerativas que precisem de matéria orgânica para recuperar solos. Circuitos curtos onde a cidade alimenta a terra que alimenta a cidade. O mapa de 1812; mas com a tecnologia e os conhecimentos de hoje.
Em algumas cidades, a compostagem comunitária está a tornar-se mais do que gestão de resíduos. Está a tornar-se espaço social.
Os pontos de compostagem de bairro funcionam como pontos de encontro. As pessoas param, conversam, conhecem os vizinhos. Os voluntários que gerem os compostores tornam-se figuras do bairro. À volta do composto nascem hortas partilhadas, trocas de sementes, refeições comunitárias.
Não é acidente. É o que acontece quando a infraestrutura é desenhada para aproximar em vez de afastar. Um ecoponto convencional; contentor de metal na esquina; não cria comunidade nenhuma. Deposita-se o lixo e vai-se embora. Um compostor comunitário exige participação; separar bem, trazer regularmente, às vezes remexer ou adicionar material castanho (folhas secas, aparas de madeira, palha, etc.). Esse pequeno esforço cria vínculo.
É também educação ambiental concreta. Quem começa a compostar percebe rapidamente quanto desperdiça. Percebe que cascas e restos não são lixo; são recurso. Percebe que a matéria orgânica não desaparece; transforma-se. Essa aprendizagem corporal – mãos na terra, cheiro do composto a evoluir – vale mais que mil campanhas de sensibilização.
Há quem diga que a compostagem é coisa de ambientalistas; nicho, marginal, irrelevante para o sistema. Discordo. A compostagem toca no centro do problema.
O problema é que construímos uma civilização linear num planeta circular. Extraímos, fabricamos, consumimos, descartamos. O lixo é o sintoma mais visível desta linearidade. E dentro do lixo, a matéria orgânica é o caso mais absurdo: material que evoluiu durante milhões de anos para circular; que quer decompor-se; que tem valor imenso para o solo; e nós gastamos dinheiro e energia a impedi-lo de fazer o que naturalmente faria.
Fechar o ciclo dos orgânicos não resolve tudo. Mas demonstra que é possível. Que uma cidade pode funcionar de outra forma. Que resíduo pode ser recurso. Que o fim de uma cadeia pode ser o início de outra.
E tem efeitos práticos imediatos: menos aterro, menos metano, menos lixiviados, menos importação de fertilizantes, mais carbono no solo, mais vida microbiana, melhor retenção de água. Cada quilo de orgânicos que volta à terra em vez de ir para o contentor é uma pequena vitória concreta.
Volto ao mapa de 1812. Não por nostalgia. O passado tinha problemas que não queremos de volta: trabalho infantil, doenças, pobreza, falta de saneamento. Mas tinha também sabedoria que perdemos: a noção de que uma cidade não existe isolada; de que depende do território à volta; de que o que sai tem de voltar.
As hortas periurbanas de Lisboa não eram romantismo. Eram necessidade. A cidade não conseguia alimentar-se de longe porque o longe era longe a sério; semanas de viagem, comida que apodrecia pelo caminho. A proximidade era obrigatória. E essa obrigação criava ciclo.
Hoje podemos importar alimentos do outro lado do mundo em dias. A proximidade deixou de ser obrigatória. Mas talvez devesse voltar a ser escolha. Não porque somos obrigados; porque percebemos que faz sentido. Que alimentos locais são mais frescos, mais saborosos, mais seguros. Que solo saudável é a base de tudo. Que nutrientes a circular valem mais que nutrientes enterrados.
A compostagem é a tecnologia mais antiga e mais sofisticada que temos. Milhões de microrganismos a fazer o que sabem fazer: transformar morte em vida, resíduo em recurso, fim em começo. Só temos de lhes dar condições.
O lixo que não é lixo está à espera. Todos os dias, toneladas de nutrientes vão parar a aterros ou incineradoras. Todos os dias, solo agrícola perde fertilidade e pede adubo sintético. O ciclo que se fechava sozinho em 1812 está partido.
Podemos repará-lo. Não é tecnologia que falta. É decisão.
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