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Por uma agricultura regenerativa idealista e baseada na evidência
O solo não responde a etiquetas, tendências ou intenções, mas às condições vigentes e à forma como é gerido. Um agricultor pode adotar várias práticas associadas à agricultura regenerativa e, ainda assim, não estar necessariamente a regenerar o seu solo. Por Manuel dos Santos, diretor do programa Regenerar da Fundação Mendes Gonçalves
30 Out 2026 - 07:01
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Manuel dos Santos diretor do programa Regenerar da Fundação Mendes Gonçalves
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Manuel dos Santos diretor do programa Regenerar da Fundação Mendes Gonçalves
A agricultura regenerativa tem vindo a ganhar terreno e isso é uma ótima notícia. Num contexto em que produzir alimentos implica responder simultaneamente à escassez de água, à degradação dos solos, à perda de biodiversidade e a condições climáticas cada vez mais desafiantes, repensar a forma como gerimos os nossos sistemas agrícolas não só é legítimo como essencial. Tal como é essencial idealizar um sistema alimentar em que os solos melhoram, os alimentos são produzidos em quantidade e qualidade, os agentes são devidamente remunerados e a sociedade melhora em termos de saúde e bem-estar, com expectativas de um futuro melhor.
Infelizmente, nos dias que correm, demasiada energia é gasta a discutir sobre aquilo que é ou não é “regenerativo”. Mobilizar ou não mobilizar, utilizar fertilizantes ou prescindir deles, integrar animais ou não: quando estas decisões passam a funcionar como critérios para determinar quem ou o que é ou não “regenerativo”, começamos a simplificar sistemas que, por natureza, são complexos e multidimensionais. O solo não responde a etiquetas, tendências ou intenções, mas às condições vigentes e à forma como é gerido. Um agricultor pode adotar várias práticas associadas à agricultura regenerativa e, ainda assim, não estar necessariamente a regenerar o seu solo.
É decisivo compreender que regenerar é um processo contínuo e não uma identidade. Uma exploração não passa, de um momento para o outro, de “convencional” a “regenerativa”. A jornada de transição faz-se através de sucessivos passos, alguns dos quais podem não ser os mais expectáveis à primeira vista. Debrucemo-nos sobre a mobilização como exemplo: minimizar a perturbação do solo é importante, porque uma mobilização excessiva pode comprometer a sua estrutura, reduzir a atividade biológica e acelerar a perda de carbono. Mas transformar este princípio na ideia de que, em caso algum, devemos mobilizar, seria trocar conhecimento por idealismo. Perante um solo severamente compactado, onde as raízes não conseguem desenvolver-se em profundidade e a infiltração da água está comprometida, uma intervenção mecânica seletiva pode ser determinante para corrigir a limitação existente.
À medida que a agricultura regenerativa ganha visibilidade, o pragmatismo será cada vez mais importante para a sua credibilidade. Se nos limitarmos a comprovar a aplicação de determinadas práticas, corremos o risco de transformar um conceito com enorme potencial numa listagem adicional a cumprir. Se, por outro lado, conseguirmos comprovar melhorias na estrutura do solo, na capacidade de infiltração e retenção de água, no teor de carbono, ou mesmo na qualidade dos alimentos produzidos, então estaremos a falar de resultados concretos, mensuráveis. E é precisamente aqui que precisamos de mais evidência. A experiência de quem trabalha diariamente no terreno aporta o conhecimento do contexto, das culturas e da resposta do solo ao longo dos anos. A ciência pode ajudar-nos a compreender mecanismos, comparar resultados e a antecipar melhor em que condições, determinada intervenção tenderá a funcionar. Ambos são essenciais.
É fulcral unirmos esforços e concentrar energia em perceber melhor aquilo que se passa no solo, acompanhar a sua evolução e, a partir daí, aferirmos se estamos efetivamente a regenerar. Para alcançar este desígnio a agricultura regenerativa precisa de entusiastas, agricultores, técnicos e investigadores capazes de observar, questionar, experimentar, medir e adaptar. Que sonhem com um ideal e que, no dia seguinte, pela manhã, arregacem as mangas e o apliquem. Ao final do dia, a pergunta verdadeiramente importante não é se uma prática é mais ou menos regenerativa, mas se, depois de a aplicarmos, o solo ficou efetivamente melhor. Mais perto do ideal.
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