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Jogar à Devesa
As nossas montanhas dão-nos aquilo que é mais valioso. Dão-nos serviços de ecossistema que não há dinheiro que pague. Por António Monteiro, presidente da Faia Brava - Associação de Conservação da Natureza
23 Out 2026 - 07:00
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António Espinha Monteiro presidente da Faia Brava
Dentro de cerca de um ano vou publicar um pequeno livro, provavelmente o texto mais importante que já escrevi. Defende o regresso da devesa, a velha paisagem de pastagem arborizada a que, no Sul, chamamos montado e em Espanha dehesa.
A palavra vem do latim defensa, terra defendida, protegida ou reservada, e sobreviveu na toponímia de todo o interior. Nas serras do Centro e do Norte, porém, este sistema quase desapareceu, e essa ausência foi simplesmente esquecida.
As consequências são muito práticas: barrocais cobertos de mato, eucaliptais e pinhais queimados ou por queimar. São quase cinco décadas de incêndios recorrentes nas nossas montanhas, que trouxeram pouca riqueza e uma enorme destruição. Somos conhecidos no mundo inteiro por isso. Mas isto pode mudar. Nestas montanhas de baixa densidade humana e solos pobres, ácidos e graníticos, defendo três medidas.
A primeira é uma solução baseada na natureza (NBS, Nature-based Solution, como agora está na moda dizer), com apoio humano. Ou seja, deixar regressar os nossos carvalhos, Quercus suber, Q. rotundifolia e Q. pyrenaica, que sobreviveram a séculos de corte, fogo e sobrepastoreio. Precisam de mais anos entre incêndios e, em muitos casos, de uma ajuda obrigatória e musculada, com desmatações, podas e sementeiras.
A segunda é devolver à montanha os grandes herbívoros, as nossas vacas e os nossos cavalos. Ovelhas, cabras e porcos também cabem, mas são os grandes que fazem a diferença: menos combustível acumulado, mais água retida nos solos, recuperação do solo, mais biodiversidade e ciclos de nutrientes a funcionar.
As nossas montanhas não produzem alimentos a preços competitivos. Muita gente pensa que os nossos montes dão dinheiro diretamente. Não dão.
Mas digo precisamente o contrário de quem desvaloriza a montanha: as nossas montanhas dão-nos aquilo que é mais valioso. Dão-nos serviços de ecossistema que não há dinheiro que pague, e estou a falar de Euros.
Não o digo de forma leviana. Também sou criador e agricultor, ou melhor, jardineiro de paisagem, e conheço as dificuldades de produzir aqui em terrenos de baixa produtividade agrícola clássica.
Acerca dos grandes ungulados domésticos, a que se vão somando veados, corços e javalis, terão de estar em regime extensivo, assilvestrado ou feral. O modelo a meu ver tem apenas diferenças na semântica, é como discutir o sexo dos anjos. Faça-se essa discussão mas, maronesas, arouquesas, cachenas, mirandesas, burros mirandeses e garranos vão comendo os combustíveis finos, e atuando no sub-coberto… todos os dias.
A terceira medida é pagar de forma justa a quem gere a terra desta maneira, pelos serviços de ecossistema efetivamente prestados. Basta olhar para a área ardida para ver que os instrumentos atuais (pseudo-agroambientais) não chegam.
Interessa também referir que este caminho de restauro ecológico já começou. Os Inventários Florestais Nacionais apontam para uma recuperação do sobreiro e da azinheira. O sobreiro, a nossa Árvore Nacional, protegido pela cortiça e capaz de rebentar depois do fogo, é dos mais preparados para o que aí vem. Já começou aqui, mas sobretudo começou em Espanha há muitas, muitas décadas atrás. Dou o exemplo de Salamanca cuja fronteira toca com estas nossas montanhas. A província de Salamanca tem cerca de 12 360 km². Os distritos de Bragança e da Guarda, juntos, têm praticamente o mesmo, 12 126 km². Salamanca tem quase 375 000 hectares de dehesa, cerca de 30 % da província.
Entre 2020 e 2025 arderam cerca de 157 000 hectares em Bragança e na Guarda, e foram contabilizados 2600 incêndios. Em Salamanca arderam cerca de 20 000 hectares, com cerca de 900 incêndios no mesmo período de 5 anos. Por quilómetro quadrado, Salamanca teve cerca de oito vezes menos área ardida e três vezes menos incêndios.
É uma comparação simples. O clima, os solos diferem, a orografia, etc, mas Salamanca também tem serras, vales profundos como as Arribes del Duero e muito granito. Há mais diferenças físicas que diferenças, aliás a grande diferença está no uso da terra: a dehesa salmantina. Talvez o futuro das nossas montanhas esteja nesse mesmo modelo, apenas muda o h pelo v.
Foi essa paisagem que, há 25 anos, serviu de inspiração à Reserva da Faia Brava. Foi em concreto o vale do Azaba, a quinze quilómetros da fronteira (“a última savana da velha Europa”), um local de visita obrigatória a todos os que pensamos, e vivemos, estes temas.
Fontes: ICNF, Relatórios Provisórios de Incêndios Rurais 2020 a 2025 e 6.º Inventário Florestal Nacional; MITECO, 4.º Inventário Florestal Nacional, Salamanca; Junta de Castilla y León; Copernicus EMS/EFFIS.
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