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Sei que não vou por aí

A IA é eficaz a reciclar o passado e a repetir o que alguém já lhe disse; mas é incapaz de saltar para o desconhecido. Por Cláudia Carocha, diretora de Inovação e Stakeholders do BCSD Portugal

19 Jun 2026 - 06:32

3 min leitura

Cláudia Carocha, diretora de Inovação e Stakeholders do BCSD Portugal

Cláudia Carocha, diretora de Inovação e Stakeholders do BCSD Portugal

Durante muito tempo, a criatividade foi vista como um dom reservado a artistas, escritores ou músicos, um talento inato, impossível de desenvolver ou treinar. No mundo corporativo, era frequentemente mantida à margem dos negócios tradicionais e da tomada de decisão.

Em 2025, o World Economic Forum lançou o “The Future of Jobs Report” onde incluiu a criatividade na sua lista de competência essenciais para um profissional, em 4º lugar, colocando o pensamento crítico em 1º lugar. Há 10 anos, em 2015, a criatividade ficou em 10º lugar no mesmo relatório. Em 10 anos, enquanto muitas competências desapareceram desta lista, a criatividade continuou a subir. Deixou de ser um luxo estético para se tornar uma estratégia de sobrevivência num mundo cada vez mais tecnológico, incerto e complexo.

Vivemos em tempos da convergência entre o humano e o artificial. Hoje, qualquer plataforma de Inteligência Artificial gera relatórios, imagens ou linhas de código em segundos, tornando ténue a linha entre o esforço intelectual e a eficácia de um bom prompt. Paradoxalmente, é nesta aparente ameaça que a criatividade humana ganha um valor sem precedentes. A IA é eficaz a reciclar o passado e a repetir o que alguém já lhe disse; mas é incapaz de saltar para o desconhecido. Otimizando o existente, sem criar o novo.

Num mundo cada vez mais V.U.C.A (volátil, incerto, complexo e ambíguo), as respostas lineares fraquejam. O futuro do trabalho já não pertence a quem acumula mais conhecimento técnico ou executa mais rápido, mas a quem tem agilidade para pensar criticamente ou diferente.

Falamos, por isso, de uma criatividade aplicada. Não se trata de pintar uma tela ou escrever uma ótima música, mas de ligar pontos aparentemente desconexos, questionar dogmas de mercado e desenhar soluções originais para problemas que ainda ontem não existiam. A criatividade tornou-se transversal: é tão urgente na gestão e no planeamento estratégico como o é na sustentabilidade ou a lidar com a tecnologia.

O espírito crítico, ou a capacidade de pensar de forma independente, de não aceitar ideias sem questionar, de colocar as questões certas, e não seguir simplesmente porque todos seguem é, condição necessária para a inovação. É desta espécie de rebeldia que a inovação pode realmente surgir.

E como diria José Régio – “Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, Sei que não vou por aí!”.

Nota: Cláudia Carocha escreve no âmbito de uma parceria mensal entre o BCSD e o Jornal PT Green dedicada à análise de temas de sustentabilidade.

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