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Valorização económica dos espaços rurais entre as soluções para combater incêndios

SGIFER regista menos incêndios em Portugal, mas mais extremos, e Quercus aponta vulnerabilidade estrutural da paisagem como um dos principais problemas nos fogos florestais. Já o país volta a olhar para práticas rurais como ferramentas de prevenção.

28 Jul 2026 - 06:27

7 min leitura

Foto: Magnific

Foto: Magnific

Em 2025, Portugal registou 8.252 incêndios rurais, o terceiro valor mais baixo desde 2001, representando uma redução de 16% face à média de 2018-2024 e de cerca de 65% relativamente ao período 2001-2017, segundo o Relatório de Atividades 2025 do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR)

Apesar de 2025 ter sido o quinto ano meteorologicamente mais severo desde 2001, com 29 dias consecutivos de perigo “Máximo”, “Extremo” ou “Excecional”, o impacto médio da área ardida no período pós-2017 continua 43% inferior ao registado antes da reforma.

O relatório mostra, da responsabilidade da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AFIF), mostra que o principal desafio do sistema “deixou de ser o elevado número de ocorrências e passou a concentrar-se na prevenção e gestão de um número reduzido de incêndios extremos”. Segundo a análise, apenas 44 incêndios foram responsáveis por cerca de 91% da área ardida nacional, o que “exige uma resposta cada vez mais centrada na adaptação às alterações climáticas, na transformação do território na antecipação do risco”, sublinha o instituto público

O próprio relatório identifica áreas onde é preciso “acelerar decisivamente” a implementação: a transformação do território e a valorização económica dos espaços rurais, com incentivos financeiros, também fiscais, que premeiem quem gere; a recuperação de áreas ardidas e a expansão da silvicultura preventiva, do pastoreio extensivo e do uso do fogo bom; a execução dos Programas Municipais de Execução e a mobilização dos proprietários; o reforço da sustentabilidade financeira do sistema; e a qualificação dos meios especializados para responder aos incêndios de comportamento extremo.

Paisagem continua vulnerável

Para a Quercus, que analisou o relatório, a vulnerabilidade estrutural da paisagem é um dos principais problemas do país no que respeita à ocorrência de fogos florestais.

A redução do número de ignições e a melhoria da resposta operacional não impediram que cerca de 271 mil hectares ardessem em Portugal em 2025. Para a associação ambientalista, os dados demonstram que “o país continua excessivamente dependente do combate e ainda não conseguiu concretizar uma verdadeira política de prevenção estrutural, baseada na gestão integrada, sustentável e continuada da paisagem”.

A concentração da área ardida num número muito reduzido de ocorrências é particularmente preocupante para a organização, na medida em que apenas 44 incêndios foram responsáveis por cerca de 91% da área ardida nacional no último ano.

“Estes dados demonstram que reduzir as ignições, embora seja indispensável, não é suficiente. O principal desafio consiste em evitar que um pequeno número de ocorrências evolua para incêndios de grande dimensão, sobretudo durante períodos de elevada perigosidade meteorológica e em territórios marcados pelo abandono rural, pela acumulação e continuidade de combustíveis e pela insuficiente gestão integrada das atividades agrícola, florestal e pastoril”, refere a Quercus.

Segundo a associação, esta vulnerabilidade é particularmente evidente nas serras do Centro e do Norte, onde extensas áreas contínuas de eucalipto e pinheiro-bravo coexistem com a ausência de descontinuidades agrícolas, pastoris ou de vegetação autóctone. “A homogeneização da paisagem cria autênticos mares de combustível, favorecendo a propagação rápida e intensa dos incêndios”, alerta a Quercus. Salienta também que este modelo reduz também a diversidade ecológica, fragiliza os ecossistemas e compromete a sua capacidade de recuperação após o fogo.

Para a Quercus, os resultados de 2025 confirmam que a reforma do sistema avançou mais rapidamente na governação, no planeamento e na resposta imediata do que na transformação efetiva da paisagem.

Regresso às práticas rurais

A valorização económica dos espaços rurais e o regresso de atividades como a pecuária extensiva, a silvicultura preventiva e o uso do fogo controlado estão a afirmar-se como algumas das principais soluções para gerir a paisagem e reduzir o risco de incêndios de grande dimensão.

A CAP, por exemplo, defende um papel mais evidenciado dos agricultores na estratégia europeia de prevenção de incêndios. Mais concretamente, a confederação dos agricultores defende a capacitação técnica dos agricultores e habitantes do meio rural para lidar com fogos rurais. O secretário-geral da CAP, Luís Mira, propõe uma “rutura estrutural com o modelo atual de combate aos fogos florestais”, exigindo que a Europa trate os incêndios rurais como uma emergência permanente de segurança civil e de soberania territorial.

Assim, a confederação recomenda o planeamento e a gestão de combustível ao longo de todo o ano, através de medidas como a profissionalização e formação contínua das equipas de coordenação de combate e dos corpos de bombeiros, a capacitação técnica dos agricultores e habitantes do meio rural, para agirem como agentes de prevenção e defesa, e a incorporação de tecnologia avançada de monitorização e previsão para mitigar as ocorrências.

Outra prática que começa a ganhar cada vez mais adeptos como pratica preventiva e valorização do território é a pastorícia.

De salientar que, em fevereiro passado, foi aprovado um programa nacional de apoio ao pastoreio extensivo, com financiamento até 30 milhões de euros por ano, destinado a reduzir precisamente o risco de incêndios rurais através da diminuição da carga combustível.

A medida inclui apoios às áreas de baldio e incentivos à manutenção de animais em regimes extensivos.

Segundo o Governo, o programa pretende reforçar a prevenção estrutural de incêndios através da valorização da pastorícia extensiva tradicional, reconhecendo também o seu contributo para a redução de emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e para o cumprimento das metas previstas no Plano Nacional de Energia e Clima 2030 (PNEC 2030).

Já na última semana, a Assembleia da República recomendou ao Governo a inclusão do gado asinino nos programas de redução da carga combustível, com financiamento para pastoreio, tração animal e gestão de áreas rurais de risco.

O objetivo é permitir que os burros possam também integrar a lista deste gado como ferramenta para serem utilizados em zonas rurais de elevado risco de incêndio, através de práticas de pastoreio extensivo, contribuindo para a redução da vegetação e manutenção dos territórios.

Este regresso às práticas rurais como ferramenta de prevenção e boa manutenção dos territórios espelha as diretrizes emanadas de Bruxelas. A Agência Europeia do Ambiente estima que cerca de 10–15% de todo o gado bovino, ovino e caprino da União Europeia são necessários para manter, através do pastoreio, os habitats protegidos. Isto corresponde a cerca de 7,8 milhões de animais nos países da UE-27.

De salientar ainda que, segundo esta agência, o número de explorações pecuárias extensivas e mistas diminuiu mais de 70% entre 2010 e 2020.

 

 

 

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