4 min leitura
“A barragem encheria em sete dias”: ZERO considera “falsa solução” a decisão do Governo para Girabolhos
Com dados de precipitação de fevereiro, associação ambientalista mostra que a capacidade de encaixe da obra seria insuficiente para reter a água gerada num episódio de chuva intensa semelhante à que afetou o Mondego. ZERO pede que a decisão não seja tomada em contexto de crise.
16 Fev 2026 - 11:43
4 min leitura
Foto: Adobe Stock/Jacques Durocher
- RASI: Área ardida por incêndios rurais quase duplica em 2025
- A economia azul em Portugal não precisa de mais estratégia. Precisa de começar a escalar
- Governo anuncia linha de 600 ME para empresas com custos de energia acima de 20%
- Interdição do aterro de Vila Real “agrava a pressão” sobre sistema de resíduos
- Figueira da Foz vai reclassificar solos para acolher unidade de produção de combustível verde para a aviação
- APA garante que obras urgentes de 27 ME no litoral estão a realizar-se “dentro do calendário”
Foto: Adobe Stock/Jacques Durocher
A associação ambientalista ZERO veio a público criticar a decisão do Governo de usar as cheias recentes na bacia do Mondego como justificação política para avançar com a construção da barragem de Girabolhos, classificando a resolução de “precipitada”, “inadequada ao contexto atual” e “desprovida de uma avaliação técnica integrada que sustente a sua urgência ou eficácia”. Em comunicado, a organização apresenta argumentos técnicos e financeiros contra o projeto, alertando que se trata de uma “falsa solução” para um problema que exige respostas mais complexas e integradas.
O Ministério do Ambiente e Energia anunciou a intenção de lançar o concurso para a barragem até ao final de março, numa altura em que a região de Coimbra ainda enfrentava os efeitos de um período prolongado de precipitação intensa. Para a ZERO, “entre projeto, avaliação ambiental, financiamento e execução da obra, decorrerão vários anos até à eventual entrada em funcionamento não respondendo, portanto, às necessidades imediatas das populações afetadas pelo que, não fará qualquer sentido que seja apresentada como solução para a emergência que se vive”.
Números contrariam a narrativa
A ZERO sustenta a sua posição com uma análise dos dados de precipitação registados entre 3 e 12 de fevereiro na estação meteorológica de Mangualde/Chão de Tavares, próxima do local previsto para a barragem. Nesse período acumularam-se 315,6 litros por metro quadrado. Aplicado à área da bacia hidrográfica associada ao projeto (cerca de 980 km², menos de 15% da bacia total do Mondego) esse valor corresponde a um volume potencial de aproximadamente 309 milhões de metros cúbicos de água. A capacidade total de encaixe da barragem, incluindo o contra-embalse de Bogueira, é de 244,7 milhões de metros cúbicos.
Ou seja, a associação concluiu que mesmo num cenário hipotético de retenção total (que na prática nunca acontece), a barragem encheria em cerca de sete dias num episódio de chuva semelhante ao de fevereiro, tornando inevitável a libertação de caudais e eliminando qualquer margem de controlo de cheias a jusante.
A barragem de Girabolhos integrou o Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico, aprovado em 2007 com o objetivo exclusivo de produção energética. Foi abandonada em 2016 por falta de rentabilidade económica. O projeto ressurge agora reconfigurado como empreendimento de “fins múltiplos” no âmbito da estratégia governamental “Água que Une”. A ideia é controlar e mitigar cheias, reforçar o abastecimento público de água, produzir energia elétrica renovável, aumentar a resiliência hídrica e valorizar o interior do país.
Para a ZERO, esta reconversão sem uma avaliação comparativa com alternativas mais descentralizadas e menos dispendiosas representa “um erro estratégico” na alocação de recursos públicos. A organização defende soluções baseadas na natureza – como bacias de retenção, recuperação do coberto florestal com espécies autóctones, restauro ecológico de cursos de água – articuladas com o cumprimento rigoroso dos instrumentos de ordenamento do território, nomeadamente a Reserva Ecológica Nacional.
A ZERO não descarta a discussão sobre soluções estruturais para a gestão da bacia do Mondego, mas exige que essa discussão ocorra fora do “contexto emocional” de uma catástrofe recente, com estudos atualizados de hidrologia, custo-benefício e impacte ambiental, e com participação pública efetiva. Alertando para o risco de “escolhas erradas e irreversíveis tomadas num momento manifestamente inadequado”, a associação pede ao Ministério do Ambiente e Energua e ao Ministério da Agricultura que abandonem uma visão que considera simplista de um problema “complexo e multifatorial”.
- RASI: Área ardida por incêndios rurais quase duplica em 2025
- A economia azul em Portugal não precisa de mais estratégia. Precisa de começar a escalar
- Governo anuncia linha de 600 ME para empresas com custos de energia acima de 20%
- Interdição do aterro de Vila Real “agrava a pressão” sobre sistema de resíduos
- Figueira da Foz vai reclassificar solos para acolher unidade de produção de combustível verde para a aviação
- APA garante que obras urgentes de 27 ME no litoral estão a realizar-se “dentro do calendário”