Subscrever Newsletter - Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Submeter

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade

4 min leitura

Carbono incorporado: o custo invisível da construção

Pela primeira vez, o carbono começa também a ser tratado como uma variável económica mensurável, capaz de influenciar preços, cadeias de abastecimento e decisões de investimento. Por Paula Raposo, ESG & Sustainability Junior

03 Out 2026 - 15:00

4 min leitura

Paula Raposo ESG Sustainability Junior Consultant Cushman Wakefield

Smiling woman with dark hair in a light blue button-down shirt, inside a green circular frame.

Paula Raposo ESG Sustainability Junior Consultant Cushman Wakefield

A discussão sobre sustentabilidade no setor imobiliário esteve, durante muito tempo, concentrada numa pergunta simples: quanto de energia consome o edifício? Há, no entanto, um problema nessa lógica: quando ligamos as luzes pela primeira vez, uma parte considerável do carbono associado ao edifício já foi emitida. O betão já foi produzido, o aço já foi transformado, o vidro já foi fabricado, os materiais já foram transportados. A obra já aconteceu.

É o chamado carbono incorporado, que, em edifícios energeticamente eficientes, pode representar cerca de 70% das emissões totais ao longo de uma vida útil típica de 60 anos, contra os 30% das emissões operacionais.

Então, porque continuamos a dar-lhe tão pouca atenção? A resposta é menos ambiental do que gostaríamos: o carbono incorporado nunca teve um impacto financeiro suficientemente direto. E é isso que está a começar a mudar.

A Diretiva do Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) introduz uma nova trajetória regulatória: maior transparência no desempenho dos ativos, metas de redução do consumo energético e a integração de métricas de carbono ao longo de todo o ciclo de vida dos edifícios. Em paralelo, os novos edifícios públicos deverão atingir o padrão de emissões zero a partir de 2028, requisito que será alargado a todos os novos edifícios em 2030.

Mas a mudança não é apenas regulatória. Pela primeira vez, o carbono começa também a ser tratado como uma variável económica mensurável, capaz de influenciar preços, cadeias de abastecimento e decisões de investimento. A introdução do Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM), que atribui um custo às emissões incorporadas em certos materiais importados para a União Europeia, é um dos sinais mais claros disto: a intensidade carbónica passa a influenciar custos, competitividade e decisões de investimento.

O carbono incorporado não se tornou subitamente mais importante. Tornou-se mais difícil ignorá-lo. Há anos que existiam razões ambientais para o reduzir; o que mudou foi a criação de mecanismos capazes de traduzir parte desse impacto ambiental em consequências económicas e regulatórias. O mercado já sente esta mudança: dados do Catalyst Group (2025) apontam para potenciais depreciações financeiras entre 21% e 40% em ativos que não acompanhem as novas exigências, enquanto investidores institucionais começam a desvalorizar ou abandonar ativos com maior exposição ao risco regulatório associado à EPBD, à Taxonomia Europeia e a futuras restrições ligadas ao carbono.

É aqui que a velha pergunta — “construir sustentável é mais caro?” — começa a perder força. A pergunta relevante passa a ser outra: quanto custa não considerar o carbono?

Descarbonizar não é simplesmente escolher o material com menor carbono por quilograma. Seria uma simplificação perigosa. Um material de baixo carbono pode deixar de ser a melhor solução se precisar de percorrer milhares de quilómetros até à obra, tal como um material com maior carbono inicial pode ter um impacto total inferior se durar significativamente mais tempo. O contexto importa: o clima, a localização, a distância aos fornecedores, a durabilidade, a quantidade de material necessária e o desempenho esperado têm de ser analisados em conjunto.

Isto exige também mudar a forma como decidimos. No terreno, a Análise de Ciclo de Vida (LCA) ainda é tratada apenas como uma ferramenta de verificação,  quando devia ser uma ferramenta de projeto. Ferramentas como o One Click LCA, EPDs e Passaporte dos Materiais já permitem quantificar estes impactos e aumentar a transparência. Hoje, a limitação já não está na falta de dados ou de ferramentas, mas na forma como estes são integrados no processo de decisão.

Talvez seja essa, afinal, a mudança mais importante: durante anos tivemos razões ambientais para reduzir o carbono incorporado; agora estamos, finalmente, a criar razões económicas e regulatórias para o fazer. E talvez seja preciso que o carbono tenha, de facto, um preço — para que o mercado reconheça o custo de não o considerar.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa na transição verde.

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade