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Crise no Médio Oriente abala investimentos energéticos e acelera corrida à independência e diversificação
Agência Internacional da Energia aponta “maior crise de segurança energética” de sempre como impulsionador de mudanças estruturais na área da energia, com integração de várias fontes e promoção da eficiência. Carvão volta a ser “porto seguro” para a China.
28 Mai 2026 - 05:47
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Fatih Birol, AIE | Foto: Foto: MAE
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Fatih Birol, AIE | Foto: Foto: MAE
Os impactos globais do atual conflito no Médio Oriente estão a levar países e empresas a repensar as suas estratégias de investimento energético, tendo em conta preocupações crescentes com a segurança energética e a fiabilidade dos fluxos comerciais, aponta um novo relatório da Agência Internacional da Energia (AIE), revelado nesta quinta-feira.
A edição de 2026 do relatório anual ‘World Energy Investment’ destaca que a atual crise energética, resultante do encerramento efetivo do Estreito de Ormuz, está a alterar a perceção do risco e a reforçar os movimentos em direção a uma maior diversificação e independência.
Segundo a AIE, o atual choque de oferta deverá deixar uma marca duradoura nas prioridades futuras de investimento, especialmente na Ásia e no Médio Oriente, onde os impactos das perturbações nos fluxos marítimos através do Estreito de Ormuz estão a ser sentidos de forma mais intensa.
“Estamos no meio da maior crise de segurança energética que o mundo alguma vez enfrentou, e acredito que isto irá reformular as estratégias de investimento a nível global, com paralelos às grandes mudanças que o setor energético viveu após os choques petrolíferos da década de 1970”, afirma o diretor executivo da IEA, Fatih Birol. O líder da agência internacional acrescenta que já estão a decorrer “esforços intensificados, tanto por parte de países produtores como consumidores, para diversificar rotas comerciais e fontes de energia — como o avanço de novos oleodutos e outras infraestruturas de abastecimento, por um lado, e um maior recurso a recursos disponíveis internamente, por outro. Estes incluem energias renováveis, energia nuclear e, em alguns casos, carvão, petróleo e gás — bem como medidas mais amplas para reforçar os sistemas elétricos, expandir a eletrificação e acelerar a eficiência energética”.
Renováveis, redes e armazenamento lideram investimentos
O relatório projeta que o investimento global em energia atinja 3,4 biliões de dólares (3,14 biliões de euros de euros), em 2026, um ligeiro aumento face ao ano anterior. Cerca de 2,2 biliões de dólares (aproximadamente 2,03 biliões de euros) deverão ser destinados a redes elétricas, armazenamento, combustíveis de baixas emissões, energia nuclear, renováveis, eficiência e eletrificação em 2026, enquanto cerca de 1,2 biliões de dólares (cerca de 1,11 biliões de euros) deverão ser investidos em petróleo, gás natural e carvão.

Gráfico: AIE
Apesar dos preços mais elevados do petróleo, o investimento neste setor deverá diminuir pelo terceiro ano consecutivo em 2026, caindo abaixo dos 500 mil milhões de dólares (cerca de 462 mil milhões de euros).
O relatório conclui que a incerteza quanto à duração do aumento dos preços, os longos prazos de execução dos projetos, os constrangimentos nas cadeias de abastecimento e um mercado mais apertado de plataformas offshore estão a limitar as respostas de investimento a curto prazo fora do Médio Oriente.
Ao mesmo tempo, a AIE estima que o investimento em gás natural aumente para 330 mil milhões de dólares (aproximadamente 305 mil milhões de euros), o nível mais elevado da última década, apoiado por uma vaga de novos projetos de exportação de GNL (gás natural liquefeito), particularmente nos Estados Unidos e no Qatar.
Aposta na produção interna e na eficiência
O relatório destaca o crescente interesse dos países importadores de combustíveis em fontes de energia disponíveis internamente, incluindo energias renováveis, energia nuclear e, em alguns casos, carvão. O investimento em projetos de energia renovável deverá totalizar cerca de 665 mil milhões de dólares (aproximadamente 615 mil milhões de euros) em 2026, dos quais 365 mil milhões de dólares (cerca de 337 mil milhões de euros) serão destinados apenas à energia solar.
Embora o crescimento anual do investimento em renováveis tenha moderado após vários anos de rápida expansão, as fontes de baixas emissões continuam a representar mais de 70% do investimento global total em produção de eletricidade. O investimento em energia nuclear continua a recuperar, ultrapassando os 80 mil milhões de dólares anuais (aproximadamente 74 mil milhões de euros), com quase 80 gigawatts de nova capacidade nuclear em construção em 15 países.
Entretanto, o investimento em carvão deverá subir para 180 mil milhões de dólares (cerca de 166 mil milhões de euros) em 2026, o nível mais elevado desde 2012, sendo a China responsável por quase 70% das despesas globais no abastecimento de carvão, sublinha a AIE. Neste sentido, o relatório observa que alguns países asiáticos afetados pela atual crise poderão procurar manter centrais elétricas a carvão em funcionamento durante mais tempo para reforçar a segurança energética.
A eficiência energética é outra das armas em cima da mesa. A estratégia, que tem vindo a crescer nos últimos anos, deverá captar cerca de 350 mil milhões de dólares (aproximadamente 323 mil milhões de euros) em todo o mundo. Sendo que cerca de 20 países já anunciaram novas medidas para melhorar a eficiência energética como resultado da crise, apesar de nesta área a Agência referir que “ainda há muitas lacunas por preencher”.
Projetos intensivos em investimento afetados
O atual conflito no Médio Oriente está a causar constrangimentos a futuros investimentos em projetos energéticos sobretudo aqueles intensivos em capital. “O conflito desencadeou volatilidade nos mercados financeiros, atrasando decisões de investimento a curto prazo e aumentando os custos de financiamento a longo prazo”, refere a AIE.
O relatório alerta que isto poderá afetar de forma desproporcionada as tecnologias energéticas intensivas em capital, particularmente nas economias emergentes e em desenvolvimento, onde os custos de financiamento já são significativamente mais elevados do que nas economias avançadas.
Quanto às tendências globais de despesa energética, o investimento relacionado com eletricidade continua a ser o tema dominante. O investimento em abastecimento elétrico e infraestruturas deverá atingir quase 1,48 biliões de euros em 2026 e subir para 1,85 biliões de euros quando incluída a eletrificação do consumo final.
As despesas com redes elétricas deverão aproximar-se dos 508 mil milhões de euros, um aumento de quase 20% em relação ao ano anterior, enquanto o investimento em armazenamento por baterias deverá ultrapassar os 92 mil milhões de euros.
As necessidades de eletricidade resultantes da rápida expansão dos centros de dados e da inteligência artificial também não é esquecida no relatório como influência importante nas tendências de investimento energético em alguns mercados, especialmente nos Estados Unidos. As encomendas de novas centrais elétricas a gás atingiram um máximo de 25 anos em 2025, com as necessidades dos centros de dados a desempenharem um papel significativo.
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