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Kavita Sinha: “O modelo de financiamento climático não é adequado aos desafios atuais”

A assessora especial do Green Climate Fun refere que a escala do financiamento climático continua muito abaixo das necessidades. E olha para Portugal como país que tem “uma enorme oportunidade” para se posicionar como centro de finanças sustentáveis.

14 Mai 2026 - 06:29

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Kavita Sinha, assessora especial da direção executiva do Green Climate Fun

Kavita Sinha, assessora especial da direção executiva do Green Climate Fun

O multilateralismo está no centro da arquitetura de resposta climática, mas necessita de simplificação, harmonização e maior coordenação para chegar às populações necessitadas, defende Kavita Sinha, assessora especial da direção executiva do Green Climate Fun, o principal fundo multilateral mundial dedicado ao financiamento da ação climática nos países em desenvolvimento.

Na sua passagem por Lisboa, onde participou na conferência “O papel do financiamento climático na promoção do desenvolvimento económico nos países africanos”, organizada pela Systemic e pelo ISEG, Kavita Sinha salientou que o atual modelo de financiamento climático não está adequado aos desafios atuais. “Precisa de crescer rapidamente e chegar de forma mais eficaz às comunidades e pessoas mais afetadas pelas alterações climáticas”, referiu em entrevista ao Jornal PT Green.

Considera ainda que a escala atual do financiamento climático continua muito abaixo das necessidades reais e que Portugal tem “uma enorme oportunidade” para se posicionar como centro de finanças sustentáveis.

Nos últimos anos, a ação climática tornou-se simultaneamente mais urgente e mais complexa. Como descreve a governação climática global atual e o papel das finanças nesse contexto?

O Green Climate Fund [GCF] é o principal fundo climático mundial para os países em desenvolvimento. Mobilizamos e disponibilizamos capital em grande escala, reforçamos instituições, apoiamos mudanças transformadoras e reunimos parceiros para gerar impacto. O GCF, juntamente com os outros fundos multilaterais para o clima, constitui a espinha dorsal da arquitetura de financiamento climático, que inclui vários outros fundos e entidades. O multilateralismo continua a estar no centro da arquitetura de resposta climática, mas necessita de simplificação, harmonização e maior coordenação para chegar mais rapidamente às populações mais vulneráveis e gerar maior impacto. O GCF, enquanto presidente dos fundos multilaterais para o clima em 2026, está plenamente empenhado em promover esta agenda e lidera os esforços para permitir que a arquitetura multilateral de financiamento climático funcione como um sistema coordenado.

Na sua perspetiva, o atual sistema de financiamento climático está a funcionar de forma eficaz ou continua desalinhado das necessidades reais?

O atual modelo de financiamento climático não é adequado aos desafios atuais. Precisa de crescer rapidamente e chegar de forma mais eficaz às comunidades e pessoas mais afetadas pelas alterações climáticas.

A visão “50×30” do GCF — uma capitalização de 50 mil milhões de dólares até 2030 (cerca de 46 mil milhões de euros) — e as reformas iniciadas pela diretora executiva do GCF, Mafalda Duarte, desde que assumiu funções em 2023, foram concebidas precisamente para acelerar o acesso ao financiamento, simplificar procedimentos, mobilizar capital privado e canalizar mais recursos para países vulneráveis e entidades com acesso direto.

A União Europeia tem sido um forte motor da ação climática, enquanto os Estados Unidos atravessam um período de menor consistência e a China é simultaneamente um dos principais impulsionadores e um dos maiores emissores. De que forma estas dinâmicas estão a afetar o investimento climático global?

Os investimentos em mitigação e adaptação climática nos países em desenvolvimento beneficiam todos os países, tanto os doadores como os recetores, ao promover estabilidade, prosperidade e mais oportunidades de emprego. Contudo, a escala atual do financiamento climático continua muito abaixo das necessidades reais. É essencial alargar a base de doadores e criar mecanismos mais eficazes para mobilizar capital privado proveniente de fontes internacionais, regionais e nacionais.

Que áreas atraem atualmente mais financiamento climático e quais continuam subfinanciadas apesar das necessidades evidentes? Que papel desempenha o Green Climate Fund nesta distribuição?

A mitigação climática, especialmente as energias renováveis em grandes economias emergentes, concentra a maior parte do financiamento climático. Em contrapartida, a adaptação, a resiliência, as soluções baseadas na natureza e as perdas e danos continuam cronicamente subfinanciados.

O GCF é uma das poucas entidades multilaterais que assumiu o compromisso de repartir o financiamento em partes iguais entre mitigação e adaptação (50/50), com base no equivalente em subvenções. Atualmente, o GCF é o maior financiador individual de adaptação entre os fundos climáticos.

A carteira do GCF, avaliada em 20 mil milhões de dólares (cerca de 18,4 mil milhões de euros), inclui 352 projetos em 134 países em desenvolvimento e está fortemente orientada para a adaptação nos países menos desenvolvidos, pequenos estados insulares em desenvolvimento (SIDS) e países africanos. O capital do GCF ajuda a desbloquear financiamento para adaptação, incluindo junto do setor privado. O financiamento do GCF apoia ainda a preparação de investimentos climáticos liderados pelos países, o reforço de capacidades, ações lideradas por comunidades e povos indígenas e o acesso direto de instituições nacionais.

O problema é falta de financiamento ou falta de estruturas para o aplicar?

São ambos. O capital concessional [n.r.: investimentos concedidos com condições significativamente mais favoráveis do que as de mercado] para mitigação e adaptação climática precisa de crescer pelo menos cinco vezes, e os mecanismos de implementação necessitam de reformas e simplificação.

Sem um fluxo contínuo de projetos bancáveis liderados pelos países, capacidade institucional ao nível nacional, normas harmonizadas em toda a arquitetura de financiamento climático e mecanismos de partilha de risco, o financiamento adicional não conseguirá chegar ao terreno.

O GCF reconhece este problema estrutural. Por isso, o financiamento de projetos transformadores é complementado por apoio à preparação nacional e por um mecanismo de preparação de projetos. Em particular, as subvenções do GCF para plataformas nacionais e programas de preparação reforçam a capacidade dos países para gerir e responder às suas prioridades nacionais.

Instrumentos como as obrigações verdes e o financiamento misto (“blended finance”) têm ganhado destaque. Estão realmente a transformar o financiamento climático ou continuam a ser soluções de nicho?

O mecanismo do GCF para o setor privado reconhece a importância do ‘blended finance’, das obrigações verdes e das garantias para mobilizar capital privado em grande escala.

O investimento âncora do GCF na Green Guarantee Company e na Global Green Bonds Initiative são exemplos de como, em parceria com outras entidades, estamos a criar provas de mercado para investimentos climáticos em grande escala nos países em desenvolvimento.

No entanto, o peso destas soluções no financiamento climático global continua relativamente reduzido. Para as expandir, e assegurar que o capital chega também aos países menores e mais vulneráveis às alterações climáticas, é necessário envolver desde cedo investidores institucionais, como fundos de pensões e seguradoras, na criação de estruturas escaláveis e padronizadas que respondam ao seu perfil de risco e, simultaneamente, gerem impacto climático transformador.

O financiamento climático é hoje visto não apenas como uma necessidade, mas também como uma das maiores oportunidades globais de investimento. O que é necessário para transformar compromissos climáticos em ativos financeiros concretos e escaláveis?

O investimento em ativos climáticos nos países em desenvolvimento, quer na mitigação quer na adaptação, representa a maior oportunidade de investimento e financiamento deste século.

É necessária uma combinação de estabilidade regulatória e política de longo prazo, reformas do sistema financeiro global que valorizem corretamente os riscos e oportunidades climáticas, um fluxo contínuo de projetos bancáveis definidos através de plataformas nacionais e um maior recurso a instrumentos de partilha de risco, como capital catalítico, estruturas ‘blended finance’, garantias e mecanismos em moeda local.

O capital do GCF, através do seu mecanismo para o setor privado, já permitiu criar várias plataformas e fundos de ‘blended finance’ para demonstrar o potencial de criação de valor dos ativos climáticos, tanto para os países como para os investidores.

Um exemplo concreto é a criação de um mecanismo de financiamento em moeda local no valor de 3,7 mil milhões de dólares (cerca de 3,4 mil milhões de euros) para apoiar projetos de mitigação e adaptação em pequenas e médias empresas indianas, através do parceiro Small Industries Development Bank of India. Este mecanismo foi viabilizado por um empréstimo concessional e subvenção do GCF no valor de 215 milhões de dólares (cerca de 198 milhões de euros), permitindo mobilizar mais 3,5 mil milhões de dólares (aproximadamente 3,2 mil milhões de euros) em capital comercial doméstico, sob a forma de empréstimos e capital próprio.

Que papel pode Portugal desempenhar na mobilização e estruturação do financiamento climático global?

Portugal é um dos contribuintes do GCF, e estamos gratos por esse apoio. Esperamos que Portugal continue a demonstrar liderança no seio da União Europeia e no espaço multilateral do financiamento climático, incluindo através de uma contribuição ambiciosa para o GCF3.

O país também tem uma enorme oportunidade para demonstrar liderança global ao aproveitar o estatuto emergente de Lisboa como centro de finanças sustentáveis, acolhendo emissões de obrigações verdes, veículos de financiamento híbrido e capital de risco em tecnologias climáticas.

 

 

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