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O petróleo venezuelano e o risco de adiar o futuro elétrico

O risco maior é que, nos EUA e noutros países que sigam a mesma abordagem, a política pública adie o desenvolvimento da infraestrutura e da capacidade industrial que condicionam o ritmo da descarbonização. Por Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

20 Jan 2026 - 11:19

3 min leitura

Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Desde a intervenção norte-americana no início do ano, a Venezuela tem sido apresentada como a «resposta energética» para um mundo que tenta descarbonizar: se os EUA tiverem acesso privilegiado às maiores reservas provadas de petróleo bruto, poderão prolongar a era do petróleo e atrasar a transição, pondo em causa as metas climáticas. Porém, esta narrativa tem dois problemas. Primeiro, as reservas provadas venezuelanas são controversas. Segundo, confunde a geologia do petróleo com a tecnologia da descarbonização: à escala global, a transição não depende apenas da abundância de crude.

Em 2023, as «reservas provadas» atribuídas à Venezuela representavam cerca de 17% do total mundial, segundo a EIA (U.S. Energy Information Administration). Importa notar que as «reservas provadas» são as quantidades que poderão ser extraídas nas condições económicas e operacionais vigentes. Mesmo aceitando os números declarados, a questão é se essas condições permitem converter reservas em produção sustentada e competitiva. Sem essa conversão, as reservas são números, não energia efetivamente disponível.

A diferença entre reservas e produção relativiza a ideia de «petróleo inesgotável»: em 2024, a produção venezuelana manteve-se muito abaixo do nível de 2015. Paul Krugman, citando Darren Woods (ExxonMobil), resume: a Venezuela é «uninvestable» nas condições atuais. Crude pesado, infraestruturas degradadas e risco político elevam custos e incerteza.

Por outro lado, Noah Smith, escritor e comentador de economia, tem salientado que a descarbonização (e, em larga medida, o poder industrial) depende menos de ter petróleo e mais de dominar o «Electric Tech Stack»: tecnologias e cadeias produtivas que substituem processos de combustão por eletricidade. Na sua formulação, a aceleração resulta de três desenvolvimentos: baterias de iões de lítio, motores elétricos com ímanes permanentes e eletrónica de potência. Este trio permite substituir motores de combustão em muitos sectores e gerar economias de escala comuns a automóveis, drones e robôs. Para os países importadores de petróleo, isso reduz a dependência externa. É verdade que preços baixos de crude diminuem o incentivo económico imediato, mas a trajetória tecnológica aponta para um novo paradigma que tende a avançar mesmo com petróleo barato.

À luz disto, a Venezuela é sobretudo um risco político de atraso, não uma garantia de petróleo barato. O seu peso é, em grande parte, narrativo: pode ser invocada para pressionar o preço do petróleo para baixo e, assim, enfraquecer os incentivos à eficiência e à eletrificação, justificando menor investimento em redes, baterias e mobilidade elétrica. Se o motor principal da transição for a consolidação do «Electric Tech Stack», o risco maior é que, nos EUA e noutros países que sigam a mesma abordagem, a política pública adie o desenvolvimento da infraestrutura e da capacidade industrial que condicionam o ritmo da descarbonização, entregando a liderança do futuro elétrico à China e a quem conseguir acompanhá-la.

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