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Ribacôa: a natureza que regressa numa paisagem em transição

O que os números descrevem não é apenas declínio demográfico. É o fim de um sistema agro-silvo-pastoril, sobretudo de subsistência, que durante gerações moldou cada encosta. Por António Espinha Monteiro, presidente da Faia Brava - Associação de Conservação da Natureza

20 Mai 2026 - 06:06

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António Espinha Monteiro, presidente da Faia Brava

António Espinha Monteiro, presidente da Faia Brava

Há uma província medieval que os cartógrafos de D. Dinis desenharam no extremo nordeste de Portugal, entre o rio Côa e a fronteira com Castela. Chamaram-lhe Ribacôa. A designação caiu em desuso durante séculos, mas o território que ela delimitava manteve a coerência territorial: planaltos graníticos, invernos rigorosos, verões secos, povoamento humano disperso, e uma forma de cultivar a terra que durou milénios e entrou em colapso silencioso em meados do século XX.

A bacia hidrográfica do Côa, que é mais ampla que Ribacôa, mas serve de área de referência, cobre cerca de 250 000 hectares de montanha mediterrânica interior. Em 1950, viviam aqui cerca de 115 000 pessoas. Em 2021, restavam 32 949. Em setenta anos, o território perdeu dois terços da sua população.

Os dados agrícolas contam a mesma história com outros números. A área cultivada com trigo rondava os 23 000 hectares em meados do século XX; hoje não chega a um milhar. Os efetivos ovinos reduziram-se quase para metade no mesmo período (de 125 mil para 61 mil). Por outro lado, os bovinos aumentaram, de cerca de 30 000 para as atuais 45 000 cabeças, a maioria em regime extensivo, num regime parecido com o das “fincas” da vizinha Salamanca, sinal de que alguma pecuária extensiva resistiu e se adaptou à nova escala de uso do território.

O que estes números descrevem não é apenas declínio demográfico. Descrevem o fim de um sistema agro-silvo-pastoril, sobretudo de subsistência, que durante gerações moldou cada encosta, cada linha de água, cada vale encaixado desta paisagem. E descrevem, em simultâneo, a abertura de um espaço ecológico que a natureza começou imediatamente a preencher.

O despovoamento e abandono das terras cultivadas não produziu um vazio ou o que muitos chamam de “baixa densidade”, pois esses adjetivos dependem da perspetiva em que olhamos o tema. Produziu de facto uma reorganização nos modos de vida, na ocupação do solo e na paisagem.

Nas encostas de granito e xisto onde a charrua deixou de passar, e onde rebanhos de ovelhas transitavam, os matos, mas também muitos arvoredos espontâneos com carvalho negral, a azinheira e o sobreiro expandiram-se de forma lenta e consistente. Percorridos, é certo, por muitos incêndios, mas aumentaram de forma autónoma, sem subsídio, sem plantação nem planeamento florestal. Ao longo das linhas de água, os corredores de vegetação ripícola, com amieiros, freixos e salgueiros, reconstituíram-se em grande extensão. Os lameiros de sequeiro (“secadal”), com freixos e carvalhos também aumentaram em área e na idade das árvores (mais grossas e mais altas), e muitos mantiveram pastagens naturais no seu interior, como clareiras de diferentes formas e tamanhos arborizadas.

As sebes naturais, com silvas, pilriteiros e roseiras bravas, umas associadas às antigas divisórias de pedra solta, outras associadas às novas vedações metálicas da bovinicultura extensiva, ganharam densidade e estenderam-se mais na ordem de centenas ou milhares de quilómetros na paisagem. Os apoios agropecuários promoveram também um aumento dos charcos de gado (uns temporários, outros permanentes, um habitat inexistente em tempos recuados). Todo este conjunto de alterações estruturais aumentou a conectividade ecológica e a heterogeneidade da paisagem.

E com ela regressaram as aves. A comparação com o segundo Atlas das Aves Nidificantes de Portugal, com dados recolhidos entre 1999 e 2005, permite perceber a direção da tendência: espécies florestais e generalistas como o pombo-torcaz, a toutinegra-dos-valados ou o pisco-de-peito-ruivo aumentaram a sua presença em quadrículas onde eram escassas há duas décadas, acompanhando a expansão das manchas arbóreas e dos corredores de vegetação ripícola. Mesmo as espécies típicas das paisagens agrícolas abertas, o trigueirão, a pupa e o verdilhão, também aumentaram, ou mantiveram as populações nos planaltos onde os lameiros e as pastagens extensivas persistem. Por outro lado, as chamadas “large body size birds”, as aves grandes, aumentaram quase todas, principalmente as aves de rapina, devido à diminuição da perseguição humana – fosse por veneno ou a tiro.

Havendo já indícios desta mudança de paisagem, a que, se quisermos, podemos chamar recuperação de habitats e biodiversidade, há vinte e cinco anos nasceu a Associação Transumância e Natureza, e com ela as primeiras aquisições de terrenos para a Natureza, que viriam a constituir a Faia Brava. Hoje, com cerca de 1 000 hectares no barrocal granítico, atravessado pelo Côa, a reserva natural privada é um dos espaços mais monitorizados e documentados desta transição ecológica em Portugal. As duas décadas e meia de dados continuados de fauna, flora e uso do solo são, hoje, um ativo científico raro.

A Faia Brava não é um modelo de replicação direta. É uma prova de conceito: a demonstração de que é possível fazer conservação privada, com base numa associação sem fins lucrativos, em território de minifúndio disperso, criando raízes locais e construindo uma história que chegou muito além dos limites de um espaço abandonado.

Entretanto, o contexto regulamentar e estratégico europeu mudou. O Regulamento de Restauro da Natureza de 2024 e a Estratégia de Biodiversidade para 2030 estabelecem metas ambiciosas de área protegida e de recuperação de ecossistemas degradados. Para o interior ibérico, e para a bacia do Côa em particular, estas metas chegam na altura oportuna num território que já começou o trabalho por conta própria.

A ideia de um Parque Nacional do Vale do Côa, primeiro esboçada em 2015 pelo conservacionista holandês Jan Gorter, em visita à Faia Brava e ao olhar para o mapa desta bacia, está hoje mais fundamentada – ainda que muito embrionária do ponto de vista da materialização legal e técnica. E poderá ser um importante contributo socioeconómico para esta região à porta da Europa. A Faia Brava e o Parque Arqueológico do Vale do Côa seriam a sua semente a norte. A Serra da Malcata, o seu remate sul. Entre os dois, um corredor de 90 quilómetros que o abutre-preto e o corço já percorrem, e onde cada vez mais caminhantes calcorreiam.

Não é uma utopia. É uma paisagem natural que evolui espontaneamente e sem estarmos a andar para trás. Falta o passo em frente do reconhecimento da sociedade portuguesa.

 

Bio: António Espinha Monteiro é biólogo, estudante de doutoramento (CIBIO-InBIO / Universidade de Salamanca) e presidente da Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza.

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