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ZERO alerta que barragem de Girabolhos não trava cheias do Mondego no dia em que é lançado concurso público
O concurso público para a construção da Barragem de Girabolhos, no concelho de Seia, é lançado nesta quarta-feira pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em Gouveia.
15 Jul 2026 - 10:28
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Foto: Adobe Stock/gonta_sss
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Foto: Adobe Stock/gonta_sss
A associação ambientalista ZERO alerta que a Barragem de Girabolhos, no concelho de Seia, é “uma falsa solução” para as cheias do Baixo Mondego. No dia em que o concurso público para a construção da barragem é lançado, a associação exige ainda que seja incluído um novo procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental que inclua uma verdadeira comparação das alternativas existentes, incluindo a reflorestação das serras a montante, em particular as serras do Açor e da Lousã.
O Concurso Público do futuro Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos de Girabolhos é lançado ainda nesta quarta-feira pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em Gouveia.
Neste sentido, a ZERO defende que, “antes do governo comprometer, no mínimo, 300 milhões de euros de fundos públicos em betão”, pelo menos parte desse investimento deve ser canalizado para a recuperação da capacidade de retenção de água da bacia hidrográfica a montante, no complexo da Serra do Açor e serras contíguas.
O Governo decidiu “ressuscitar” o projeto da barragem em fevereiro deste ano, no seguimento das cheias do Mondego, que fizeram com que os diques de proteção do rio, em Coimbra, não resistissem à força das águas.
A barragem foi projetada pela primeira vez no Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico, lançado pelo Governo de José Sócrates, no entanto, nunca chegou a ir para a frente, sendo cancelada em abril de 2016.
Dez anos depois, a associação ambiental defende que “uma infraestrutura desta dimensão não pode avançar sem uma avaliação de impacte ambiental nova, integral e atual, que inclua a comparação séria das várias alternativas possíveis”.
Para a ZERO, a barragem é insuficiente uma vez que deixa de fora mais de 85% da bacia do Mondego. A área que drena para Girabolhos é estimada em 980 km², “o que corresponde a menos de 15% da bacia hidrográfica do Mondego”.
Assim, a associação ressalta que “os restantes 85% continuam a gerar cheias que a barragem não interceta”. Segundo a ZERO, os 315,6 litros/m² acumulados em nove dias de fevereiro de 2026, aplicados à área da bacia associada à barragem, geram cerca de 309,3 hm³ de água, um valor superior à capacidade total de encaixe de Girabolhos, de 244,7 hm³.
“O próprio grupo de trabalho que analisou as cheias do Mondego que ocorreram em fevereiro deste ano concluiu que a infraestrutura existente no rio rende abaixo do previsto devido à modificação do comportamento hidrológico da bacia”, lê-se no comunicado enviado ao Jornal PTGreen. Além disso, a ZERO relembra que o mesmo grupo de trabalho apontou a necessidade de uma política de reflorestação intensa das encostas, como resposta estrutural, em particular das Serras do Açor e da Lousã.
ZERO prevê que orçamento ultrapasse os 500 milhões
Ainda que o custo indicativo oficial da barragem, de acordo com a Estratégia Água que Une, seja de 300 milhões de euros, com execução prevista entre 2026 e 2037, a ZERO prevê que o orçamento ultrapasse os 500 milhões.
Neste sentido, a associação relembra que a intervenção florestal em Portugal custa atualmente até cerca de 1 500 €/ha. “Mesmo assumindo um valor generoso de 2 000 a 3 000 €/ha para uma intervenção integrada de restauro, os 300 milhões de euros da barragem permitiriam intervencionar entre 100 000 e 150 000 hectares, suficiente para abranger toda a bacia a montante ”, constatam.
Além disso, consideram ainda que esta solução acrescentaria benefícios “que a barragem não garante”, como retenção de sedimentos, resiliência ao fogo, biodiversidade, sequestro de carbono e qualidade da água.
“A mitigação das cheias recentes do Mondego não depende da capacidade de armazenar água, mas sim de atrasar e dessincronizar o escoamento. É exatamente aí que as soluções de base natural são mais eficazes e é aí que a barragem nada faz, porque não atua sobre a origem da cheia, o solo, os sedimentos ou a biodiversidade”, afirma a ZERO.
Assim, a associação ambientalista defende que antes de se avançar com quaisquer procedimentos de execução do projeto, deve ser realizada uma Avaliação de Impacte Ambiental que considere as alternativas razoáveis. Além disso, pedem que o Governo dê prioridade ao investimento na recuperação da capacidade de retenção da bacia do Mondego, começando pelo complexo do Açor e serras contíguas, antes de comprometer recursos públicos na construção de novas infraestruturas em betão.
É ainda defendida a criação de uma sub-bacia-piloto demonstrativa, baseada num sistema integrado de soluções de base natural. Segundo a ZERO, a implementação deverá decorrer de forma faseada, desde as intervenções de estabilização de emergência até à auto-organização do sistema.
O comunicado alerta ainda para a necessidade de não instrumentalizar as cheias, defendendo que a vulnerabilidade das populações afetadas não deve servir de justificação para avançar com uma infraestrutura de elevado custo e eficácia questionável, sem uma avaliação técnica integrada e comparativa.
Por último, é proposta uma monitorização rigorosa, com a medição de indicadores como os caudais, o tempo de resposta das bacias, a erosão e a recuperação do coberto vegetal. O objetivo é assegurar transparência quanto às incertezas existentes à escala da bacia hidrográfica e construir uma base de evidência científica que atualmente falta em Portugal.
“Gastar centenas de milhões de euros a jusante do problema não é criar resiliência, é repetir, à escala do Mondego, o erro de planeamento que as cheias de 2026 vieram expor. Para a ZERO, a prioridade tem de estar onde a cheia nasce, na serra”, conclui a associação.
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