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Apanhados no eco da ficção científica

A sustentabilidade empresarial entrou numa nova fase. Hoje, tem de ser entendida como capacidade de transformação sistémica e adaptação. Por Tiago Carrilho, diretor de Conhecimento e Formação no BCSD Portugal

22 Mai 2026 - 06:33

5 min leitura

Tiago Carrilho, diretor de Conhecimento e Formação no BCSD Portugal

Tiago Carrilho, diretor de Conhecimento e Formação no BCSD Portugal

Há futuros que parecem tão distantes que quase pertencem ao cinema ou a letras de músicas. O ano de 2050 é muitas vezes tratado assim: como uma data longínqua, algures depois dos planos estratégicos, dos ciclos políticos, dos orçamentos anuais e das urgências do trimestre. Essa distância é enganadora, 2050 já começou.

A construção do futuro começa nas decisões que tomamos hoje. Nas infraestruturas que escolhemos construir ou nas cadeias de valor que redesenhamos. Nos modelos de negócio que ainda mantemos, mesmo quando já sabemos que pertencem a outro tempo. Começa também nas competências que desenvolvemos, nas alianças que criamos e na coragem com que decidimos olhar para além do imediato. As forças de mudança são várias e assentam em diferentes dimensões: desde a natureza e clima, aos valores, tecnologia e economia, à sociedade e cultura

No recente filme Project Hail Mary, a humanidade enfrenta uma ameaça existencial e a resposta não surge de um herói perfeito, mas de uma missão improvável, movida por ciência, engenho, colaboração e uma dose extraordinária de esperança. Há algo profundamente atual nessa metáfora. Não porque estejamos à espera de uma nave que nos salve, mas porque também nós enfrentamos uma missão crítica: garantir que a economia, a sociedade e a vida no planeta continuam possíveis, desejáveis e justas.

Talvez o nosso verdadeiro desafio seja deixar de viver presos no eco de decisões antigas, modelos ultrapassados e promessas repetidas. Ainda organizamos a economia com o eco do crescimento ilimitado, da abundância infinita, da separação entre negócio e natureza, entre competitividade e bem comum. É apenas som que ainda não se extinguiu, mas que tem fim anunciado. Garanto-vos que não será em 2050, pode mesmo ser antes.

Existem sinais claros para além do eco habitual. A crise climática já não é uma previsão: é uma variável económica, social e territorial. A perda de biodiversidade ameaça sistemas produtivos inteiros. A pressão sobre a água, a energia, os solos e as matérias-primas redefine a competitividade. A transição digital abre possibilidades extraordinárias, mas também novas desigualdades sociais.

Perante isto, já não basta perguntar como é que as empresas se adaptam ao(s) futuro(s). A pergunta decisiva é outra: que futuro estão as empresas a ajudar a construir?

A sustentabilidade empresarial entrou numa nova fase. Durante anos, foi vista como mitigação de impactos, gestão reputacional ou resposta regulatória. Hoje, tem de ser entendida como capacidade de transformação sistémica e adaptação. Não se trata apenas de reduzir danos; trata-se de criar modelos económicos capazes de regenerar recursos, reforçar comunidades, distribuir valor de forma equilibrada e operar dentro dos limites do planeta. No fundo, transformar a economia em benefício das pessoas e planeta.

Esta transição exige lideranças renovadas. Exige que o nosso pensamento seja sistémico, a decisão corajosa e o modus operandi colaborativo. O pensamento sistémico emerge porque os desafios não cabem dentro das fronteiras de uma empresa. As decisões corajosas, porque haverá escolhas difíceis, custos de curto prazo e decisões sem garantias absolutas. O modus operandi terá de ser colaborativo porque nenhuma organização, por maior que seja, conseguirá resolver sozinha problemas que são interdependentes por natureza.

A Visão 2050 que estamos a construir no BCSD Portugal deve funcionar como uma bússola que nos ajude a decidir neste terreno sempre em mudança. Que ajude as empresas a adaptar e decidir não para algo concreto, mas para algo que ainda está para vir. É disso mesmo que vive a transformação, de uma adaptação constante e de uma resiliência que é construída com a preparação para vários cenários.

Para Portugal, esta é uma oportunidade estratégica. Somos vulneráveis aos riscos climáticos, mas temos condições únicas para liderar dimensões críticas da transição: energias renováveis, economia azul, gestão da água, soluções baseadas na natureza, cidades resilientes, turismo sustentável, inovação industrial e cadeias de valor mais circulares.

O ano de 2050, ou qualquer um no futuro, será o resultado daquilo que formos capazes de fazer nesta década e não do que nos ecoa do passado. Não será construído por discursos sobre o amanhã ou de compromissos vazios do passado, mas por decisões tomadas hoje com coragem suficiente para atravessar ciclos políticos, pressões de curto prazo e modelos esgotados.

O futuro não está à espera. Está na missão de o construir agora.

E esta missão não será cumprida por quem fica preso ao eco do passado. Como nos trazem os Foo Fighters no seu último álbum, na música Caught in the eco, “Sometimes you can’t decide (who can save us now?)”, diria que ainda nos podemos salvar a todos deste eco se tivermos a lucidez, a ambição e a coragem de imaginar e construir uma economia capaz de fazer as pazes com o futuro (neste mundo real e não na ficção).

Nota: Tiago Carrilho escreve no âmbito de uma parceria mensal entre o BCSD e o Jornal PT Green dedicada à análise de temas de sustentabilidade.

 

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