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Luciana Peres: “O apoio à ciência é absolutamente indispensável na pesquisa de soluções”
A presidente da Fundação BNP Paribas Portugal reforça o foco da organização em apoiar projetos de investigação que valorizem a biodiversidade marinha. Investimento inicial de 1,5 milhões de euros será direcionado para dois projetos nesta área.
25 Abr 2026 - 10:32
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Luciana Peres, presidente da Fundação BNP Paribas Portugal
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Luciana Peres, presidente da Fundação BNP Paribas Portugal
A Fundação BNP Paribas Portugal, a 14ª Fundação do Grupo BNP Paribas a ser criada a nível mundial, tem o objetivo de reforçar o compromisso do grupo com o desenvolvimento sustentável e inclusivo da sociedade portuguesa. Com especial foco nos oceanos, pretende apoiar e promover a conservação da biodiversidade marinha.
Com um investimento inicial de 1,5 milhões de euros já direcionado para a investigação científica sobre os oceanos, a Fundação posiciona a biodiversidade marinha, em particular no Atlântico, como eixo estratégico da sua ação ambiental. A este compromisso soma-se a mobilização de uma rede de mais de 9.700 colaboradores do Grupo BNP Paribas em Portugal, com capacidade técnica e científica para apoiar projetos no terreno através de voluntariado de competências.
Na semana em que realizou a sua primeira conferência, dedicada à biodiversidade e assinalada no Dia da Terra, a presidente Luciana Peres destaca uma abordagem centrada na ciência, com investimento com impacto mensurável e parcerias estratégicas para acelerar a transição sustentável em Portugal.
Quais são as principais prioridades da Fundação BNP Paribas Portugal para ajudar o país a nível ambiental? Que papel pretendem desempenhar no país?
A criação da Fundação BNP Paribas Portugal foi oficialmente aprovada e reconhecida em novembro de 2025. O dia 22 de abril é o dia em que se celebra o Dia da Terra e também uma data muito relevante para a Fundação, pois é a data em que decorreu a primeira conferência da Fundação, com o foco na biodiversidade, um dos três pilares de atuação da Fundação BNP Paribas Portugal.
O pilar Ambiente – Clima e Biodiversidade tem uma prioridade muito concreta: apoiar e promover a conservação e regeneração da biodiversidade azul, em especial no Oceano Atlântico. Esta escolha está, naturalmente, ligada à identidade de Portugal, que é profundamente ligada ao mar. Os meios para a concretizar são essencialmente dois. Nomeadamente, através de investimento em projetos de investigação que permitam aumentar a capacidade de gerar e escalar soluções baseadas em ciência, na conservação e regeneração do ecossistema marinho; bem como, através da disseminação do conhecimento científico como parte de uma abordagem cívica, contribuindo, assim, para a criação de novas narrativas para as gerações futuras.
Para além do pilar ambiental, a Fundação vai também desenvolver e apoiar projetos na área social, para aumentar a inclusão social através da qualificação e do emprego, com ênfase no trabalho junto de populações vulneráveis, e na área da cultura, com vista a aumentar o acesso a atividades culturais por parte daqueles que normalmente não têm essa oportunidade e apoiar artistas de grupos sub-representados na revitalização de expressões artísticas portuguesas.
A Fundação BNP Paribas Portugal não irá trabalhar sozinha, mas antes criar parcerias de longo prazo, que para além do investimento financeiro possa apoiar os seus parceiros, ou os seus beneficiários, através de voluntariado de competências. Com mais de 9.700 colaboradores a trabalhar no Grupo BNP Paribas em Portugal, maioritariamente com qualificações académicas superiores, é certo o valor que é possível aportar, na capacitação destas organizações parceiras, nas suas tarefas de gestão e operações.
O investimento inicial de 1,5 milhões de euros está concentrado na investigação sobre oceanos. Como é que este tipo de financiamento científico se traduz, na prática, em valor económico e em soluções para a economia azul?
A base da economia azul assenta na existência de oceanos naturalmente saudáveis, em que o ecossistema marinho funcione em pleno, de forma sustentável e duradoura. Na eventualidade desta premissa não se confirmar, o desenvolvimento da economia azul estará em risco, bem como o valor económico que gera. A Fundação BNP Paribas Portugal sabe que a realidade atual dos nossos mares se afasta cada vez mais da premissa base, por isso, é da convicção da Fundação que o apoio à ciência e à investigação é absolutamente indispensável na pesquisa de soluções, escaláveis, que permitam reforçar a conservação, mas também na regeneração da biodiversidade e todo o ecossistema marinho.
O valor que referiu provém de um programa internacional lançado pela Fundação-mãe o Climate and Biodiversity Initiative, cuja dotação em recursos financeiros para esta edição de 2025 é de 7M€, e que vai apoiar 11, de entre 163 projetos submetidos, dos quais dois são projetos liderados por investigadores portugueses. De forma um pouco mais detalhada, o projeto OCEANPATH, liderado pelo Dr. Nuno Queiroz, vai utilizar tecnologias inovadoras de monitorização e mapeamento 3D para prever a deslocação de tubarões e baleias no Oceano Atlântico. O projeto SHOW-IT, liderado pela Dra. Ana Veríssimo, por sua vez, vai estudar as condições ideais para o desenvolvimento precoce de tubarões Pata-roxa. Com a informação e os dados gerados por estas tecnologias e estudos será possível criar áreas marinhas protegidas, identificar rotas marinhas mais seguras, com vista a preservar estas espécies, enquanto parte integrante do ecossistema marinho, crucial para a continuação do desenvolvimento de uma economia azul sustentável.
Há também intenção de apoiar iniciativas com aplicação direta no mercado, nomeadamente em energias renováveis ou tecnologias limpas?
Enquanto fundação recém-criada, é fundamental manter o foco nas prioridades definidas, projetos e resultados esperados, por forma a garantir que é produzido um impacto positivo, mensurável, e não são desperdiçados recursos. A área das tecnologias limpas ou das energias renováveis são, sem dúvida, igualmente importantes, neste caso, mais para combater as alterações climáticas, e são parte integrante do desenvolvimento de negócio do BNP Paribas, no âmbito da sua atividade core. São duas dimensões e áreas de atuação distintas, mas complementares com vista ao mesmo fim: o desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade.
Em dezembro, aquando do anúncio da Fundação, disse acreditar no “poder do trabalho colaborativo e estabelecimento de coligações com vista à obtenção de alterações sistémicas” na sociedade e no planeta. Que tipo de parcerias são prioritárias para acelerar a transição verde em Portugal?
E reafirmo! Os resultados de um trabalho colaborativo, no longo-prazo, são mais significativos e mais duradouros, do que quando realizado de forma isolada, sobretudo quando existem tantas e tão boas organizações a trabalhar no dia-a-dia no terreno, detendo, portanto, muito mais conhecimento sobre as reais necessidades e possíveis soluções. Dito isto, a Fundação BNP Paribas Portugal irá trabalhar, lado a lado, com a academia, ONG, outras fundações, bem como com outras organizações da esfera pública ou privada que partilhem o mesmo quadro de valores e ambição da Fundação.
Está previsto um envelope financeiro anual para estas áreas em Portugal? Que peso poderá vir a ter Portugal na estratégia global de sustentabilidade do BNP Paribas?
A posição da operação em Portugal, no âmbito da estratégia e set-up Global do Grupo BNP Paribas é, já hoje, significativo. A operar em 64 países, a decisão de criar a Fundação BNP Paribas em Portugal, a 14ª a nível mundial, atesta bem essa importância, assim como a relação de longo-prazo com o nosso país. O Grupo está a celebrar 40 anos de presença em Portugal e o crescimento da sua equipa em Portugal confirma a sua importância. A Fundação BNP Paribas Portugal nasce, desta forma, da vontade clara de retribuir a um país que tem proporcionado tanto ao BNP Paribas.
No que diz respeito à dotação e orçamento financeiro, a Fundação tem um modelo duplo robusto. Por um lado, tem prevista a contribuição direta por cada uma das áreas de negócio presentes em Portugal. Por outro, tem acesso ao apoio direto e indireto pela Fundação-mãe. O melhor exemplo é o que já referi, de dois projetos portugueses que foram selecionados, no âmbito da Climate and Biodiversity Initiative da Fundação-mãe, entre 163 candidaturas a nível mundial e que captaram 1,5 milhões de euros para Portugal, dos 7 milhões de euros referidos anteriormente. Portanto, a capacidade de investimento da Fundação vai além dos recursos locais e será tanto maior quanto a qualidades demonstrada pelos projetos apoiados. Para concluir, a estratégia do banco na área da sustentabilidade vai muito para além da sua atividade filantrópica, e é indiscutivelmente mais importante no âmbito do desenvolvimento do seu negócio bancário. São duas dimensões e áreas de atuação distintas, mas complementares, com vista ao mesmo fim: o desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade.
Como será medido o retorno dos projetos apoiados, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também económico e social?
Através da adoção de uma metodologia de medição, inspirada nos princípios do Impact Management Project e da sua aplicação a dois níveis: um focado na contribuição da Fundação para as suas organizações parceiras e o outro focado no impacto direto das intervenções apoiadas, nos beneficiários finais, detalhado em cada acordo de parceria de impacto. Esta abordagem dual permite uma distinção clara entre o apoio estrutural fornecido pela Fundação, por exemplo, financiamento, capacitação, visibilidade, e os resultados sociais, culturais ou ambientais, tangíveis, que são alcançados por cada projeto. Juntos, asseguram que a efetividade da ação da Fundação, quanto à mudança transformacional criada no terreno, seja rigorosamente monitorizada, avaliada e comunicada. Esta clareza fortalece a tomada de decisões estratégicas futuras, reforça a responsabilidade e, em última análise, maximiza a contribuição positiva da Fundação para a sociedade portuguesa.
Num momento em que a transição climática exige escala e rapidez, como pode uma fundação corporativa contribuir para gerar mudanças sistémicas e não apenas projetos-piloto?
O propósito e os compromissos da Fundação BNP Paribas Portugal são claros e estão bem delimitados, o que ajudará na seleção altamente direcionada dos projetos e beneficiários, bem como na adequação do apoio: financeiro, mas também através de donativos de outras espécie e voluntariado. A que acresce a capacidade de mobilização e influência que o BNP Paribas poderá ter junto de toda a sua cadeia de valor. E, por fim, claro, está no trabalho colaborativo e em parceria que queremos desenvolver com quem está no terreno, os mais capacitados para identificar as necessidades, mas também para desenhar as soluções que atuem na raiz dos problemas, ser escaláveis e produzir essa mudança sistémica. Sozinha, a Fundação BNP Paribas Portugal não é capaz de chegar a todos, mas está empenhada e organizada para, à sua escala, dar a sua contribuição.
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