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Associações alertam que eucaliptos e El Niño são “ingredientes para o desastre” ao agravar risco de incêndio

Ao longo dos anos, a cobertura de eucaliptos pelo país tem-se intensificado no país, com destaque para as regiões Centro e Norte, sublinham a Environmental Paper Network e a Quercus. Associações acusam a indústria do papel de "lobby" financeiro.

20 Ago 2026 - 13:43

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Foto: Freguesia de Manhouce

Foto: Freguesia de Manhouce

A proliferação das monoculturas de eucalipto podem estar a transformar a paisagem “num autêntico pavio”, permitindo que os incêndios se propaguem com mais velocidade e violência, alertam a Environmental Paper Network e a Quercus.

Além disso, numa intitulada “receita para o desastre”, as associações referem que em 2026 a manifestação do fenómeno El Niño para secas severas, precipitação extrema e ondas de calor, veio adicionar uma “pressão devastadora” sobre o território português.

De acordo com comunicado, os grandes incêndios já registados este ano, como o de Vouzela, em julho, responsável por metade da área ardida nacional até ao momento, são o “sintoma visível de um país vulnerável e desarmado”.

Para a Environmental Paper Network e para a Quercus, o risco provocado pela monocultura dos eucaliptos é “o resultado direto de décadas de políticas florestais erradas, da desregulação promovida por sucessivos governos e do domínio sufocante do lobby da indústria de pasta de papel, papel e biomassa lenhosa”.

Ao longo dos anos, a cobertura de eucaliptais pelo país tem-se intensificado no país, com destaque para as regiões Centro e Norte, sublinham as associações. 

Além da combustibilidade extrema, estas explorações podem ainda exercer pressão sobre os recursos hídricos, o que provoca seca nos solos e o agravamento do impacto das secas severas, cujas ocorrências, com maior frequência, são agravadas pelas alterações climáticas.

“O meio natural tem perdido a sua capacidade de resiliência e adaptação a um clima mais seco, mais quente e mais propício aos incêndios florestais”, lê-se no comunicado. 

Neste sentido, relembram que, em 2022, as Nações Unidas para os Direitos Humanos e o Ambiente recomendaram a redução drástica da área de eucaliptal e a sua substituição por espécies autóctones mais resistentes ao fogo, como carvalhos, sobreiros e castanheiros, ao lado da criação de mosaicos paisagísticos diversificados.

No entanto, as associações acusam a indústria da celulose de continuar a “garantir acesso privilegiado à decisão política, bloqueando a reforma florestal e garantindo subsídios públicos para um modelo falhado que privatiza os lucros e socializa o prejuízo da destruição e da perda de vidas”.

Perante este cenário, as duas organizações defendem a adoção de medidas urgentes para travar a expansão do eucaliptal e reduzir a vulnerabilidade do território aos incêndios.

Entre as principais exigências está uma moratória à instalação de novas áreas de eucalipto e à rearborização com esta espécie, bem como a definição de metas vinculativas para a redução progressiva da área ocupada até 2030. Além disso, a Quercus e a Environmental Paper Network defendem ainda a substituição destas áreas por espécies autóctones, como carvalhos, sobreiros, castanheiros e azinheiras.

As associações pedem também a revisão do Regime Jurídico das Ações de Arborização e Rearborização (RJAAR) e o reforço da fiscalização no terreno, considerando necessário pôr fim ao que classificam como “desregulação” do setor florestal.

No plano financeiro, defendem a aplicação do princípio do poluidor-pagador, através da criação de uma taxa sobre o impacto ambiental da indústria da pasta de papel e da biomassa. Segundo as organizações, as empresas que beneficiam da monocultura devem contribuir para financiar a prevenção e o combate aos incêndios, bem como o restauro dos ecossistemas afetados.

Para o mundo rural, as propostas passam pela criação de mecanismos de pagamento por serviços ambientais, destinados sobretudo a pequenos proprietários que mantenham ou plantem floresta autóctone, e pela promoção de mosaicos paisagísticos diversificados. 

As associações defendem ainda a criação de faixas de proteção com espécies folhosas e galerias ripícolas junto a estradas, cursos de água e cristas de serras.

O incentivo à pastorícia e à agricultura de montanha é outra das medidas apontadas, enquanto formas de gestão da biomassa e de combate à desertificação do território rural.

“É hora de escolher entre a salvaguarda da vida, do território e do futuro do país, ou a manutenção dos lucros de um setor que tem transformado Portugal num cenário permanente de cinzas”, concluem as associações. 

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