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CE promove energia nuclear como “mais segura do que muitas outras fontes energéticas”
Debate europeu volta a centrar-se na energia nuclear como complemento às renováveis na estratégia climática e de resiliência energética da União Europeia.
23 Mai 2026 - 10:28
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Foto: Magnific
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Foto: Magnific
A resiliência energética tornou-se uma prioridade na agenda dos líderes da União Europeia, que têm vindo a reforçar o papel da energia nuclear como um pilar estratégico do cabaz energético europeu. Esta aposta visa não só reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, provenientes sobretudo de fora do mercado europeu, mas também acelerar o cumprimento das metas climáticas e da agenda de descarbonização do bloco.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, tem sido a principal vocalista desta mensagem, tendo já referido que a redução da energia nuclear na Europa “foi um erro estratégico”, defendendo por várias vezes que a combinação de energia nuclear com renováveis é essencial para garantir eletricidade acessível, fiável e de baixo carbono na União Europeia.
Falta, no entanto, afastar o “fantasma” dos acidentes de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e de Fukushima, no Japão, em 2011, que continuam a marcar a perceção pública sobre energia nuclear e a alimentar preocupações quanto à sua segurança. Apesar dos avanços tecnológicos e do reforço significativo dos padrões regulatórios, estes episódios históricos permanecem como referências inevitáveis no debate sobre o risco nuclear.
Numa comunicação publicada nesta semana, a Direção-Geral de Energia da CE vem tentar clarificar junto da opinião pública algumas questões, distribuídas por cinco pontos.
As normas de segurança
Nomeadamente, que as centrais nucleares seguem normas de segurança rigorosas. “Do ponto de vista estatístico, a energia nuclear é mais segura do que muitas outras fontes energéticas, com menos acidentes de trabalho ou fatalidades. Segundo a OCDE, o carvão é responsável pela maioria das fatalidades em acidentes relacionados com energia, seguido do petróleo e do gás”, esclarece a CE.
Quanto às preocupações sobre radiação, a direção-geral refere que a proteção contra radiação está no centro do desenho e operação das centrais nucleares, que já existem há mais de 50 anos. “As centrais na UE estão sujeitas a normas de segurança nuclear muito rigorosas, com sistemas destinados a proteger trabalhadores, ambiente e população”, refere na comunicação. Acrescentando que os dados recolhidos ao longo de décadas mostram que “não existem níveis anormais ou elevados de radiação nas suas proximidades. Qualquer radiação observada pode ser comparada, ou até ser inferior, à radiação natural de fundo, como raios solares, minerais radioativos no solo, exames médicos ou viagens de avião”.
O que fazer aos resíduos
Outra das questões que continua a gerar preocupação prende-se com o destino dos resíduos radioativos. A Comissão Europeia esclarece, contudo, que o combustível nuclear usado e os resíduos de alta atividade, que representam cerca de 0,2% do volume total de resíduos radioativos, necessitam de armazenamento geológico profundo. Por exemplo, na Finlândia, o repositório geológico profundo de Onkalo está localizado a mais de 400 metros de profundidade em rocha.
“Os resíduos radioativos são tratados e acondicionados, sendo frequentemente aplicadas medidas de redução de volume (como a supercompactação). O combustível usado pode ser reprocessado para reciclar componentes reutilizáveis, como acontece em França e nos Países Baixos, o que reduz a quantidade de combustível usado a gerir. No entanto, este processo também gera resíduos de alta atividade que precisam de ser armazenados. Conceitos avançados de reatores poderão reduzir ainda mais a quantidade e a radiotoxicidade a longo prazo destes resíduos”, pode ler-se na nota divulgada.
Produção de quase um quarto da eletricidade
Em 2024, as centrais nucleares asseguraram 23,3% da eletricidade produzida na UE, num contexto em que a produção desta fonte energética registou um crescimento anual de 4,8% face a 2023.
Atualmente, 12 Estados-membros mantêm centrais nucleares em operação: Bélgica, Bulgária, Chéquia, Espanha, França, Hungria, Países Baixos, Roménia, Eslovénia (em copropriedade com a Croácia), Eslováquia, Finlândia e Suécia. Em vários destes países, a energia nuclear assume um peso significativo no mix elétrico nacional, com destaque para a França (67%) e a Eslováquia (62%), que surgem como os mais dependentes desta fonte na produção de eletricidade.
No âmbito da avaliação de impacto da meta climática para 2040, a CE sublinha que todas as soluções energéticas de baixo e zero carbono, incluindo renováveis e nuclear, “são essenciais para descarbonizar o sistema energético”. A análise aponta para um cenário em que as energias renováveis terão um papel maioritário, complementadas pela energia nuclear, permitindo que mais de 90% do consumo de eletricidade na UE seja assegurado por fontes limpas até 2040.
Grandes chaminés com pouco fumo
O mais visível nas centrais nucleares são as grandes “chaminés”, que na realidade são torres de arrefecimento. A vários quilómetros de distância, parecem emitir grandes nuvens de “fumo branco”, que na verdade é vapor de água.
A CE destaca que a energia nuclear é uma das fontes de eletricidade com menores emissões de carbono, “porque praticamente não produz gases com efeito de estufa durante a operação, emitindo apenas CO₂ mínimo ao longo de todo o seu ciclo de vida, incluindo construção, produção de combustível e desmantelamento)”.
As energias renováveis e a energia nuclear juntas representam cerca de dois terços (65%) da eletricidade gerada na EU.
Embora caiba aos países da UE decidir quais as fontes energéticas a utilizar, todos se comprometeram a eliminar gradualmente os combustíveis fósseis nocivos. Vários países da UE incluíram a energia nuclear juntamente com fontes renováveis nos seus sistemas energéticos para diversificar o abastecimento e minimizar as emissões de gases com efeito de estufa. Não é o caso de Portugal, onde a ministra do Ambiente já referiu que não é um investimento que se justifique atualmente no país dado o seu custo e a elevada implantação de energias renováveis.
A promessa da fusão nuclear
Importa distinguir a tradicional energia de fissão, cujas primeiras centrais começaram a operar na década de 1950, da ainda em investigação energia de fusão. A fissão permite produzir grandes quantidades de energia de forma estável e com baixas emissões de carbono, mas levanta preocupações relacionadas com a segurança, os elevados custos e a produção de resíduos radioativos de longa duração, como já vimos.
Já a fusão apresenta vantagens significativas: utiliza combustíveis abundantes, não emite dióxido de carbono durante a operação, produz resíduos muito mais reduzidos e de curta duração e não envolve os mesmos riscos de acidentes graves. Por estas razões, a energia de fusão é vista como uma solução potencialmente mais segura e sustentável, embora ainda enfrente desafios tecnológicos antes de poder ser aplicada comercialmente.
A UE é o maior contribuinte e acolhe o maior reator experimental de fusão do mundo, o ITER, atualmente em construção no sul de França. O International Thermonuclear Experimental Reacto visa provar a viabilidade da fusão como fonte de energia limpa e segura.
A Agência Internacional de Energia Atómica aponta a energia de fusão como uma prioridade estratégica para investigação e desenvolvimento na área da energia limpa.
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