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CE aposta nos mini reatores nucleares para fortalecer autonomia energética
A UE pretende criar instrumentos financeiros para atrair investimento privado e ligar os SMR a polos industriais e energéticos. O objetivo é lançar os primeiros mini reatores na década de 2030.
02 Mar 2026 - 07:44
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Vice-presidente executiva para a Transição Limpa, Teresa Ribera | Foto: Philippe Stirnweiss, PE 2025
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Vice-presidente executiva para a Transição Limpa, Teresa Ribera | Foto: Philippe Stirnweiss, PE 2025
A Comissão Europeia (CE) está a preparar uma série de medidas para impulsionar o investimento em tecnologias limpas na área da energia, incluindo a aposta em mini reatores nucleares (SMR, na sigla em inglês).
Segundo documentos a que o jornal El Economista teve acesso, a proposta a ser apresentada pela vice-presidente da CE para a Transição Limpa, Teresa Ribera, e pelo vice-presidente responsável pela Estratégia Industrial, Stéphane Séjourné, assenta em três pilares: a Estratégia de Investimento em Energia Limpa, o Pacote de Energia para os Cidadãos e a Estratégia para o Desenvolvimento de SMR.
A posposta será apresentada no dia 10 de março, dia em que a CE espera também a visita do diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, na sequência de queixas dos EUA relativamente à postura “pró-energias renováveis” da agência.
Segundo documentos preliminares obtidos pelo El Economista, Ribera apresentará um plano para posicionar os mini reatores nucleares como uma alavanca para fortalecer a autonomia energética, acelerar a descarbonização e impulsionar a competitividade industrial da UE, com foco especial em atividades de difícil eletrificação, como as indústrias química e siderúrgica.
O documento propõe que os SMR se tornem um projeto industrial europeu partilhado, capaz de revitalizar a cadeia de abastecimento nuclear, criar empregos qualificados e desenvolver capacidades tecnológicas com potencial de exportação.
Na visão da CE, uma abordagem fragmentada, com projetos dispersos e normas incompatíveis, aumentaria os custos, prolongaria os processos de licenciamento e minaria a confiança dos investidores e do público.
A estratégia a ser proposta, segundo a informação verificada pelo jornal espanhol, visa concentrar o apoio nos projetos nucleares mais promissores. Prevê ainda instrumentos financeiros para atrair capital privado e ligar os SMR a polos industriais, centros de dados, produção de hidrogénio e redes de aquecimento urbano. Destaca-se também a cooperação regulatória entre autoridades nacionais para harmonizar procedimentos e manter elevados padrões de segurança e gestão de resíduos. A Comissão considera realista o arranque dos primeiros SMR europeus na década de 2030, estimando uma capacidade entre 17 e 53 GWe até 2050.
A energia nuclear é vista como pilar da descarbonização e da segurança do abastecimento, complementando as renováveis e ajudando a atingir mais de 90% de eletricidade descarbonizada em 2040. A capacidade nuclear instalada deverá passar dos 98 GWe em 2025 para cerca de 109 GWe em 2050.
O jornal sublinha, por outro lado, que no desempenho das suas funções no Governo de Pedro Sánchez, enquanto ministra para a Transição Ecológica da Espanha, Ribera terá liderado a campanha pelo encerramento gradual das centrais nucleares espanholas.
O renascimento da energia nuclear
O revés relativamente à energia nuclear está a ocorrer um pouco por todo o mundo, devido à necessidade de descarbonização, para alimentar os crescentes projetos de inteligência artificial e eletrificação automóvel, e também como salvaguarda da autonomia energética dada a evolução geopolítica. No caso da União Europeia, sublinha-se a estratégia de autonomia energética que está a ser levada a cabo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Recorde-se que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu, na última reunião do Fórum Económico Mundial, em Davos, a construção de uma “verdadeira união da energia” como pilar para a independência europeia, apontado a energia e as renováveis como ativos para reduzir dependências.
Recentemente, o Governo dos Países Baixos estabeleceu oficialmente que a energia nuclear fará parte da estratégia para alcançar a neutralidade climática até 2050 e eletricidade com emissões zero até 2040. “A diversificação do fornecimento de energia permite continuar a satisfazer a crescente procura de eletricidade. Isto tornará os Países Baixos menos dependentes do fornecimento de energia do estrangeiro, como acontece atualmente com o petróleo e o gás”, referiu na altura o Governo.
Também a Finlândia já está a braços com uma estratégia de modernização do seu parque nuclear. Neste âmbito, o Banco Europeu de Investimento está a conceder à empresa Teollisuuden Voima Oyj 90 milhões de euros para modernizar dois reatores nucleares na ilha de Olkiluoto, a sudoeste da Finlândia.
A Polónia também recebeu, em dezembro passado, luz verde para a construção e exploração da primeira central nuclear da Polónia, um projeto considerado decisivo na estratégia de descarbonização do país. A futura central, em Lubiatowo-Kopalino, terá três reatores com uma capacidade total de até 3.750 mil MW e deverá arrancar na segunda metade da década de 2030.
Do outro lado do mundo, o Japão reabriu recentemente a maior central nuclear do mundo, 15 anos após desastre de Fukushima.
Segundo a Associação Nuclear Mundial, a ambição dos governos em relação à energia nuclear poderá superar a meta global de triplicar a capacidade até 2050. Segundo o relatório, a capacidade nuclear mundial poderá atingir 1446 GWe até 2050, ultrapassando a meta de 1200 GWe, caso os planos governamentais se concretizem. Estes incluem a extensão da operação de reatores existentes, a conclusão de projetos em construção e a implementação de projetos planeados e propostos.
Em Davos, durante o Fórum Económico Mundial, Sama Bilbao y León, diretora-geral da ANM, destacou “o papel essencial da energia nuclear como pedra angular para satisfazer a crescente procura de eletricidade e energia”, acrescentando que os governos têm ambições que superam a meta de triplicar a capacidade nuclear até 2050. “Agora, governos visionários, líderes da indústria global, financiadores e sociedade civil precisam de trabalhar juntos e agir atempadamente para transformar essas ambições em ações concretas. Esta é a nossa oportunidade de garantir um futuro energético mais limpo e seguro para todos, em todo o lado, alimentado por energia nuclear acessível, disponível 24/7 e de baixo carbono”, referiu.
No caso concreto da União Europeia, os últimos dados avançados pelo Eurostat mostram que a produção de energia nuclear no espaço cresceu 4,8% em 2024, com a França a liderar a produção, sendo é responsável por 58,6% da produção (380.451 GWh) na UE, seguida de Espanha (54.510 GWh; 8,4%), Suécia (50.665 GWh; 7,8%) e Finlândia (32.599 GWh; 5,0%).

Recorde-se que França é o segundo do mundo em termos de capacidade instalada de energia nuclear, logo a seguir aos EUA. A administração de Donald Trump está, aliás, a apostar nos fósseis e no nuclear em termos de estratégia energética, em detrimento das renováveis. No caso da energia nuclear, o executivo dos EUA está a investir 2,5 mil milhões de euros para reforçar a produção nuclear doméstica. A estratégia passa também por dar acesso às empresas a esta tecnologia. Uma nova iniciativa permite às empresas testar, em ambiente real, aplicações inovadoras de micro reatores nucleares, numa oportunidade considerada rara a nível internacional.
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