13 min leitura
IA e descarbonização impulsionam energia nuclear
Seja através da tradicional energia de fissão ou da promissora energia de fusão, a energia nuclear está a voltar a atrair as atenções do mundo. Os investimentos avolumam-se e acelera a corrida global ao lançamento do primeiro reator de fusão nuclear comercial.
05 Jan 2026 - 07:32
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Pedro Ferreira, professor no Departamento de Física do ISEL | Foto: Jornal PT Green
- Itália investe na economia circular e eficiência energética com €225 milhões do BEI
- Nova ferramenta Google baseada em IA consegue prever desastres naturais
- Portugal pede à UE para não enfraquecer mercado de carbono
- Programa de inovação identifica 12 projetos com potencial para transformar gestão de resíduos de embalagens
- Marinha Grande eleva prejuízos pelo mau tempo para 143 ME
- Capacidade de energias renováveis a nível global deverá duplicar para 8.4TW até 2031
Pedro Ferreira, professor no Departamento de Física do ISEL | Foto: Jornal PT Green
Nos últimos anos, a energia nuclear voltou a despertar interesse um pouco por todo o mundo, impulsionada tanto pela necessidade de descarbonizar os sistemas elétricos como de encontrar soluções de energia contínua para alimentar os crescentes sistemas de inteligência artificial (IA).
Importa distinguir a tradicional energia de fissão, cujas primeiras centrais começaram a operar na década de 1950, da ainda em investigação energia de fusão. A fissão permite produzir grandes quantidades de energia de forma estável e com baixas emissões de carbono, mas levanta preocupações relacionadas com a segurança, os elevados custos e a produção de resíduos radioativos de longa duração. Já a fusão apresenta vantagens significativas: utiliza combustíveis abundantes, não emite dióxido de carbono durante a operação, produz resíduos muito mais reduzidos e de curta duração e não envolve os mesmos riscos de acidentes graves. Por estas razões, a energia de fusão é vista como uma solução potencialmente mais segura e sustentável, embora ainda enfrente desafios tecnológicos antes de poder ser aplicada comercialmente.
Mas voltemos à realidade atual. Segundo os últimos dados Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, na sigla inglesa), a capacidade nuclear operacional global é de 377 GW(e), fornecida por 417 reatores distribuídos por 31 países. Os maiores produtores de eletricidade nuclear do mundo são os Estados Unidos, a China e França. Os EUA, que possuem o maior parque nuclear global, foram responsáveis por 30% da produção total em 2024, a China contribuiu com 16% e França, que tem a maior quota de energia nuclear no seu mix elétrico (67,3%), forneceu 14%. No total, a energia nuclear representa cerca de 9% da eletricidade mundial, desempenhando um “papel crucial” na produção de energia de baixo carbono, segundo a IAEA.
“Com a inteligência artificial e com a necessidade de descarbonização, sem sombra de dúvidas que os reatores nucleares são uma solução”, sublinha Pedro Ferreira, professor no Departamento de Física do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), explicando ao Jornal PT Green que “se as previsões de consumo de energia associadas à construção e à operação dos centros de dados se confirmarem, a capacidade de produção de eletricidade atualmente instalada poderá revelar-se insuficiente. Nesse cenário, os preços da energia tenderão a aumentar, tornando necessária a disponibilização de mais capacidade de produção, o que reabre a discussão sobre a eventual utilização de reatores nucleares”. Assim, “até as energias renováveis serem capazes de ser fiáveis em quantidade suficiente, grande parte da eletricidade que produzimos poderá ter de vir de reatores nucleares. Não me chocaria que esse fosse o caminho a seguir daqui a 20 ou 30 anos. Porque temos um problema gravíssimo com as alterações climáticas e a única maneira de o resolver é emitir menos carbono”.
As vantagens da energia nuclear passam pela elevada quantidade de energia gerada, pelas reduzidas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) em comparação com a energia fóssil. “A quantidade de energia que é libertada por quilograma de combustível num reator nuclear não tem comparação com o que nós obtemos em qualquer outra forma de geração de energia. Se comparar a quantidade de energia produzida num reator nuclear, com um kg de combustível, com as toneladas de carvão necessárias para fazer essa mesma quantidade de energia, a diferença é avassaladora”, explica Pedro Ferreira.

O aparelho mostra a intensidade e energia da radiação gama emitida por uma fonte radioactiva de Césio-137. | Foto: Jornal PT Green
No entanto, a energia nuclear apresenta desafios significativos, como o risco de acidentes graves, tal como aconteceu em Chernobyl (Ucrânia, 1986) e em Fukushima (Japão, 2011). Não esquecendo que “uma nação que tenha a tecnologia para fazer um reator nuclear tem a possibilidade de usar o urânio enriquecido para fazer armamento atómico”, e, claro está, os elevados custos que esta tecnologia acarreta. Para a construção da central, produção da energia, para a gestão dos resíduos radioativos e inclusive necessita de investimento posterior durante décadas para manutenção até ser seguro o desmantelamento do reator.
Corrida ao nuclear liderada pelos EUA
Segundo o World Energy Outlook 2025, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE), os combustíveis fósseis continuam a dominar o mix energético global, com cerca de 80–85%, e as renováveis contribuem com 15–18%. Mas a AIE indica que a energia nuclear está a recuperar terreno, com investimentos a crescer tanto em centrais tradicionais de grande dimensão como em novos projetos, incluindo pequenos reatores modulares (SMR). Mais de 40 países já incluem a energia nuclear nas suas estratégias e estão a avançar com novos projetos. Para além dos reatores que estão a retomar operação, sobretudo no Japão, existem mais de 70 GW de nova capacidade em construção, um dos níveis mais elevados dos últimos 30 anos. Empresas de tecnologia estão a apoiar o surgimento de novos modelos de negócio, com acordos e manifestações de interesse para 30 GW de SMR, sobretudo para alimentar data centers. Com estes desenvolvimentos, após mais de duas décadas de estagnação, a capacidade nuclear global deverá aumentar pelo menos um terço até 2035, prevê a agência.
Os EUA querem continuar a liderar em todas as frentes do nuclear. Em outubro passado, a administração de Donald Trump anunciou que vai investir cerca de 80 mil milhões de dólares (68 mil milhões de euros) na construção de novos reatores nucleares para produzir eletricidade. Trump tem como objetivo construir 10 reatores nucleares convencionais até 2030. A energia nuclear vai, aliás, receber a maior parte do dinheiro do gabinete de empréstimos do Departamento de Energia dos EUA.
Também é nos EUA que a academia anda de braço dado com as empresas. O inovador projeto MARVEL vai permitir que cinco empresas selecionadas testem os seus projetos num micro reator nuclear avançado no Idaho National Laboratory. Os projetos escolhidos vão explorar diferentes utilizações da energia nuclear, incluindo o fornecimento de energia a centros de dados, o suporte a aplicações de IA, a produção de água potável em locais remotos através de dessalinização e o teste de sensores avançados para reatores de nova geração.

O frasco contém um pedaço de uma rocha da área de Nisa com urânio natural | Foto: Jornal PT Green
Mas a Europa também está a avançar com investimentos no nuclear. A Polónia, por exemplo, vai construir a primeira central nuclear modular da Europa. Em 2023, o governo polaco aprovou a construção de 24 SMR em seis regiões.
A Finlândia, por sua vez, recebeu do Banco Europeu de Investimento (BEI) 90 milhões de euros para modernizar dois reatores nucleares na ilha de Olkiluoto. A operação, segundo o BEI, contribui para a missão europeia de dispor de energia competitiva, sem emissões e segura, em consonância com o “Roteiro Energético para 2050” da União Europeia, que prevê que a energia nuclear continue a desempenhar um papel essencial no cabaz energético dos Estados-membros que optem por a utilizar.
O nuclear aparece como solução também para um continente africano com necessidades de muita energia. De acordo com a AIEA, cerca de 500 milhões de africanos continuam sem acesso à eletricidade. Até 2030, o continente representará 20% da população mundial, um dado que reforça a necessidade de investir em fontes de energia limpas e estáveis, incluindo a nuclear. Assim, a AIEA prevê que África vá triplicar a capacidade de energia nuclear até 2030.
Também o Japão, apesar de palco de acidentes graves, se prepara para retomar as operações da maior central nuclear do mundo, em Kashiwazaki-Kariwa.
E em Portugal?
A instalação de centrais nucleares em Portugal não está na agenda. A própria ministra do Ambiente e Energia questionada sobre o tema, aquando da apresentação do orçamento do Ministério do Ambiente e da Energia para 2026, referiu não ter “nada contra essa tecnologia”, mas explicou que “o desenvolvimento tecnológico de hoje é caro e não é adequado à dimensão de Portugal. França e Espanha devem continuar, mas para um país pequeno é muito caro começar a usar o nuclear”.
Pedro Ferreira recorda ainda que Portugal não tem mineração de urânio para produzir o combustível necessário aos reatores e também a rede elétrica teria de estar preparada para receber energia dessa fonte, que deve ser constante e sem grandes oscilações por uma questão de segurança. “A gestão das redes elétricas é um grande quebra-cabeças”, assinala Pedro Ferreira, recordando o caso do Apagão que teve lugar na Península Ibérica em abril de 2025. “É preciso pôr isto em perspetiva, porque pode ter muitas exceções e vai variar muito de país para país”, sublinha.
Portugal está, aliás, a fazer outro caminho. O país está a apostar nas renováveis para suprimir a energia necessária. Segundo os últimos dados da REN, o consumo de energia renovável no país cifra-se nos 68%, estando muito focado na produção hídrica, solar e eólica.
Mundo aposta na promissora fusão nuclear
Voltemos então á promissora fusão nuclear, que surge como uma alternativa mais segura e limpa à fissão, sem emissões de CO₂ nem produção de resíduos radioativos de longa duração. Ao utilizar hidrogénio como combustível, um recurso abundante, dispensa a mineração de urânio e não permite a fabricação de armas nucleares, sendo apontada como uma solução energética potencialmente mais barata e sustentável no futuro.
A IAEA aponta a energia de fusão como uma prioridade estratégica para investigação e desenvolvimento na área da energia limpa. A organização destaca os resultados alcançados com o projeto ITER (International Thermonuclear Experimental Reacto), a maior experiência científica global de fusão nuclear, com o objetivo de provar a viabilidade da fusão como fonte de energia limpa e segura e que está a decorrer em França. “A fusão entrou numa nova fase decisiva”, refere a IAEA, destacando que 33 países e milhares de engenheiros e cientistas “estão a colaborar para construir e operar um dispositivo de fusão magnética projetado para provar a viabilidade da fusão como fonte de energia em grande escala e livre de carbono”.

Construção do Reator Termonuclear Experimental Internacional (ITER), o maior dispositivo de fusão do mundo. Foto: ITER, 2025
A questão é que o processo de fusão é muito mais complexo de fazer do que a fissão. “A fissão nuclear foi descoberta em 1938 e em 1945 já estávamos a utilizá-la para destruir duas cidades, Hiroshima e Nagasaki. O primeiro reator nuclear é de 1942 e foi construído precisamente para possibilitar a construção da bomba atómica. O primeiro reator comercial que produz eletricidade para a distribuição na rede elétrica é de 1957”, explica Pedro Ferreira. Por outro lado, o processo de fusão, conhecido como “fonte de energia das estrelas” é difícil de replicar de forma continua e eficiente. “O sol brilha porque, no seu centro, há fusão nuclear a ocorrer a cada instante. O que se passa é que o processo de fusão nuclear é muito mais difícil de ser feito do que o processo de fissão nuclear”, sublinha Pedro Ferreira.
Ainda assim, a investigação continua. O investimento privado global em fusão ultrapassou os 10 mil milhões de dólares, proveniente de fundos soberanos, grandes empresas e utilizadores de energia. A IAEA defende que a fusão deverá desempenhar “um papel importante” no futuro mix de eletricidade.
Entretanto, na Europa, a Gauss Fusion, empresa de tecnologia verde fundada para construir a primeira central de fusão comercial do continente, completou o primeiro estudo abrangente europeu de mapeamento de clusters industriais e locais de energia adequados para a primeira geração de centrais de fusão na Europa. O estudo identificou 150 clusters industriais com 900 locais na Europa, todos potencialmente capazes de acolher a primeira geração de centrais de fusão. Os potenciais locais foram identificados na Alemanha (53), França (14), Itália (7), Espanha (17), Suíça, Dinamarca (5), Países Baixos (7), Áustria (7) e República Checa (8), estando tipicamente situados em centros industriais ou áreas de elevada procura energética.
Também na Europa, a agência europeia Fusion for Energy (F4E) e a empresa sueca Novatron Fusion Group assinaram recentemente um acordo de colaboração para partilhar conhecimentos e experiências em investigação e desenvolvimento de fusão nuclear.
Alguns Estados-membros integram o grupo pioneiro de países que pretende criar um hub para desenvolver tecnologias nucleares inovadoras, incluindo a energia nuclear de fusão. Segundo informações da Comissão Europeia, são 13 os países que integram este “Projeto Importante de Interesse Comum Europeu” (IPCEI, na sigla em inglês) sobre tecnologias nucleares inovadoras, incluindo a fusão, o que facilitaria a concessão de apoios estatais.
Já nos EUA, o próprio presidente, através da empresa Trump Media & Technology Group (TMTG), detida em 58,7% por Donald Trump, acaba de entrar na corrida ao desenvolvimento da fusão nuclear. A empresa anunciou a fusão da TMTG com a TAE Technologies, empresa norte-americana especializada em energia de fusão nuclear, para iniciar, já em 2026, a construção da primeira central elétrica de fusão à escala comercial do mundo.

Pedro Ferreira, professor no Departamento de Física do ISEL | Foto: Jornal PT Green
“Em termos da fusão nuclear, estamos sempre a dizer que é a energia do futuro, estamos sempre a ouvir que vai acontecer daqui a 20 anos. Há várias razões para isso. É um processo muito complicado e as tecnologias ainda não existem, estão a ser testadas. Há muitas start-ups, por exemplo nos Estados Unidos, que dizem que não vão fazer em grande escala, como tem vindo a ser feita até agora”, explica Pedro Ferreira, acrescentando que “é sempre bom que se tentem novas ideias, mas de momento a melhor esperança para a fusão nuclear é este projeto, o ITER, mas que está com atrasos atrás de atrasos”.
Entretanto, em plena corrida ao nuclear, enquanto a fusão não entra em operação, as organizações globais tentam reduzir os riscos da fissão. A Associação Nuclear Mundial e o Instituto Mundial para a Segurança Nuclear assinaram recentemente um Memorando de Entendimento que reforça a cooperação em áreas-chave de segurança no uso da energia e tecnologia nuclear. O objetivo é consolidar a confiança pública e preparar a indústria para uma expansão acelerada da capacidade nuclear nas próximas décadas.
- Itália investe na economia circular e eficiência energética com €225 milhões do BEI
- Nova ferramenta Google baseada em IA consegue prever desastres naturais
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- Programa de inovação identifica 12 projetos com potencial para transformar gestão de resíduos de embalagens
- Marinha Grande eleva prejuízos pelo mau tempo para 143 ME
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